Howard Eynon saiu de casa aos dezassete para tornar-se actor, fez teatro, televisão e gravou um disco. Terá descoberto a erva e os cogumelos alucinogénios pela mesma altura. A razão de ele ali estar à nossa frente, com uma fita a prende-lhe os cabelos totalmente brancos que chegam aos ombros, é ter-se apercebido que o seu único álbum, “So What If I’m Standing In Apricot Jam”, modestamente editado em 1974, na Tasmânia, era hoje uma obra paga cara por colecionadores.

Howard Eynon foi um rebelde num país ‘pequeno’, na Austrália, para onde foi com dez anos emigrado de Inglaterra com a família – o que não o impediu, todavia, de ter participado no elenco de “Mad Max” de George Miller. É da IMDB a primeira publicação ao googlar o seu nome, onde constam também as participações nos filmes “The Man From Snowy River” e “The Quest”. Grande parte dessa história o próprio Howard contou diante da plateia sentada que marcou presença, quinta-feira, na ZDB. Com ênfase dado às transversais que os cogumelos lhe abriram no cérebro – o que está patente na primeira música –, depois de muitos minutos a conversa resvala tenuemente entre o senhor com bom humor e o avôzinho que tomou demasiadas trips: ouve-se “Boots & Jam & Heads & Things”.

Neste, que foi o seu primeiro concerto fora da Tasmânia, na também sua primeira tour de sempre, trinta e cinco anos depois de ter editado o seu único disco, Howard mostrou que sabe o que é o palco, não revelando nervosismo mesmo quando as suas histórias se desarticulavam e nós nos ríamos porque nos lembrávamos dos cogumelos. Uma hora de música e variedade. Sendo a segunda a própria personalidade hippie com a fita no cabelo a condizer com as calças do músico e actor. Renascido – ainda a tempo de dar uma palestra de folk e de como estar no palanque com uma guitarra acústica sem parecer um boneco. Daqueles a quem se puxa um cordel, e anda aos piparotes, e faz barulhos ao rapaz dos Alek Rein.