Todos gostamos de clareza e sinceridade. Assim nos chegam osHOLY: prontos a mostrar furiosamente e causticamente aquilo que pensam. Política, religião, ideologia. Nada é tabu, tudo soa sincero.

Os HOLY não contabilizam muitos anos de existência. Quando se formou a banda sentiram que havia uma lacuna a preencher? O que motivou a sua existência?

Os HOLY formaram-se há pouco mais de um par de anos. Fundamentalmente somos quatro amigos que decidiram criar um grupo punk.

O que mudou desde o debut para o novo disco? Mudaram de alguma forma o modo de compor? Acham que dois anos depois isso trouxe maior maturidade a banda?

Relativamente ao primeiro trabalho (que, em boa verdade, nasceu como uma demo, gravada poucos meses após a formação da banda, e lançada por Marco/Hell Yes!), o nosso primeiro longa-duração necessitou de mais tempo na composição, atenção aos detalhes e maior cuidado na produção. Foi gravado na nossa antiga sala de ensaios, com a diferença que a mistura (na altura feita por mim e por um amigo, em minha casa num Mac e com as colunas que tinha na cozinha) foi feita por Icio, dos Hate Studio de Vicenza. Posso dizer com segurança que crescemos muito desde o início. Voltando a ouvir o “velho” disco, algumas coisas fazem-nos sorrir. Para além disso, tocar bastante tem contribuído para termos um som mais compacto e homogéneo.

Como descreverias o “The Age Of Collapse”? Sentem que consegue chegar onde o EP não chegava?

Creio, e espero, que com o “The Age of Collapse” consigamos definir melhor o “nosso” som, derivando menos em relação ao nosso início, e talvez um pouco mais pessoal. As novas malhas, que vamos gravar em breve, continuam no seguimento do álbum, marcando ainda mais os elementos de que mais gostamos na composição.

Nota-se uma produção mais apurada e forte no novo registo, mas sem se perder o intuito de alguma “sujidade” no som? Tiveram diferentes cuidados na produção?

Para nós sempre foi, e sempre será importante, tentar fazer transpirar de um disco, aquilo que é a sensação ao vivo. Uma banda punk é, antes de tudo, uma banda live, que, num segundo momento, grava discos. A “sujidade” é inevitável e é o elemento que dá “vida” ao que gravamos. Nenhum de nós gosta de produções ultra cuidadas e limpas, a edição excessiva deixamos para o metal. O punk deve ser o mais genuíno e espontâneo possível, por isso, tentámos ser nós próprios os primeiros a ter esse posicionamento. Ir misturar num estúdio ajudou bastante para dar ao disco uma maior vida relativamente à limitação da misturaDIY. Procuramos manter alguma coerência com o som que temos desde o início, talvez com mais cuidado no resultado final.

Será evidente a faceta punk e hardcore, mas há mais que isso. Concordas? Como definirias o som dos HOLY?

Todos nós ouvimos bandas e géneros diferentes, que podem cobrir tipos antagónicos. O hardcore e o punk dos anos 80 e 90 são sem dúvida uma das principais influências. O som que nós preferimos tem que ser directo e eficaz, e não houve período mais próspero do que esses vinte anos, para o criar em toda a sua plenitude. Receio que sejamos demasiado punk para o público hardcore, e demasiado hardcore para o público punk, e isso não tem ajudado as nossas tentativas de encontrar um espaço no panorama musical à nossa volta.

A capa do “The Age Of Collapse” com a imagem da crucificação, encarna algum tipo de conceito religioso? Como se posicionam nesse aspecto?

Somos os quatro ateus, agnósticos e racionalistas. Nenhum de nós acredita em alguma entidade divina a criar e a definir o destino da humanidade. Por isso, gostamos desde sempre de brincar com o nome do grupo, antitético relativamente ao pensamento que é a base dos textos e de como vemos o mundo. A capa é mais uma forma de provocar. Várias vezes tivemos que dar explicações acerca do nosso nome e de como pensamos. Como tal, muitas vezes somos mal entendidos, e, por causa disso, nos últimos meses tentámos ao máximo esclarecer a nossa posição sobre deus e a religião. Contudo, bastaria ler alguns dos nossos textos para se perceber a nossa visão.

As vossas opções ideológicas e o facto de serem vegans muda radicalmente a forma como se exprimem nas letras? Serve de influência?

Na verdade, o grupo foi criado apenas pelo simples desejo de tocarmos juntos. Só depois é que percebemos que eramos todosvegans, por isso não vimos nenhum problema em comunicar essa vertente. A sensação que venho tendo nos últimos anos, é que se tem perdido um pouco do valor comunicativo da música punk. Muitas vezes vou a um concerto e sinto-me num ambiente asséptico e estéril. Já ninguém fala sobre como as nossas escolhas são importantes para uma mudança global e local. Acredito que a música tem um fortíssimo poder comunicativo, e ter um público receptivo, tal como deveria ser o do mundo do DYI, poderia ser o terreno ideal para se construir algo. No passado era assim e fico frustrado ao ver que será difícil continuar dessa forma. Dito isto, nós tentamos comunicar o mais possível, sem chegar a sermões ou monólogos que acabam por ser contraproducentes.

Uma das vossas imagens apresenta a frase “Humanity Is Evil”. Será mesmo assim? O que vos desperta para este tipo de mensagem?

Apesar de ser a forma de vida mais “inteligente”, o Homem é a única espécie no planeta que conseguiu criar um desequilíbrio. Para fazer uma metáfora religiosa, podemos dizer que se os animais não humanos acreditassem em deus, o Homem seria de certeza o demónio.

Perante as notícias que nos chegam muitas vezes acerca de Itália, acredito que exista muitas semelhanças em termos de governação com Portugal. Compadrios, cunhas, corrupção e afins que minam as ambições do modesto povo. Estou certo? Sendo a mensagem algo importante para vós, este tipo de factores influenciam o vosso processo de escrita?

Estamos sempre atentos à situação política italiana. Penso que chegámos a ser a chacota da Europa e do planeta inteiro. Passámos de um governo técnico para outro, sem solução de continuidade. A democracia parece ter sido completamente esquecida, em nome de uma comodidade de governo benéfica apenas para as classes mais altas. Passámos de um ladrão, pedófilo e mafioso em fuga (Berlusconi), que governou o nosso país durante décadas, para uma explosão de popularidade eleitoral de um comediante, bobo, demagogo (Grillo), passando por um governo não votado pelo povo italiano (Monti), para chegar a um governo que é o resultado do interesse da classe dirigente que finge bater-se até ao último voto, mas, na verdade, a única coisa que faz é auto proteger-se. Viver nesta situação não nos tem ajudado a ter uma visão positiva do futuro.

Vi num fórum que queriam marcar um concerto na Holanda e que apenas pediam sítio para dormir, comida e pouco mais. Para além disso estavam dispostos a emprestar o vosso backline a outras bandas locais. Isto é genuinamente generoso. Acham que esta postura cooperante acaba por se exprimir na forma como encaram a música?

Quando estamos em digressão o objectivo é tocar o mais possível, de preferência em sítios onde ainda não estivemos, por isso, acontece muitas vezes ter datas sem marcações ou dias livres. Não nos interessa tornarmo-nos ricos ao tocar, se não teríamos escolhido outro género musical, e acreditamos que suportarmo-nos mutuamente constitua a base para poder criar um circuito mais funcional. Nós próprios organizamos concertos em Milão e em toda a Itália, e tentamos o mais possível ajudar bandas que estejam emtour e que nos escrevem a pedir apoio, porque sabemos o quão importante é ter nem que seja comida e uma cama onde dormir.

Apesar de vocês estarem envolvidos também na promoção de outras bandas, pouco sabemos acerca da cena hardcore de Itália. Tirando a crescente divulgação actual dos The Secret, pouco mais temos sabido. Como são por aí as oportunidades para tocar e chegar perto das pessoas?

Para dizer a verdade, em Itália não há muitos sítios onde gostamos de tocar. Posso dizer que a zona mais próspera neste momento é o nordeste, entre Vicenza, Trento e Trieste. Estes são os locais onde nos sentimos mais à vontade, quer em termos humanos com os outros grupos com que tocámos, quer em termos de resposta do público. Muitas vezes tocar em pequenas vilas corre mil vezes melhor do que um concerto numa metrópole como Milão. Mesmo em Milão é difícil encontrar situações onde ficamos entusiasmados por um concerto (tanto como espectadores ou como músicos em palco). Nas pequenas localidades as pessoas são muito mais abertas para a diversão e para deixarem para trás as pequenas rivalidades, invejas e masturbações mentais que se encontram nas grandes cidades. Os The Secret são sem sombra de dúvida um dos grupos mais válidos e activos, mas, felizmente, existem outros grupos que se destacam, tais como os Grime, Kontatto e os Left in Ruins. Comparativamente à Alemanha ou à Escandinávia, a Itália fica um nível abaixo em quantidade e, sobretudo, qualidade dos grupos, infelizmente.

Sentem que conseguem transmitir ao vivo aquilo que se ouve no disco? Consideram o palco como o vosso habitat?

A experiência ao vivo é o que mais gostamos. Fizemos cinco toursem pouco mais de um ano, e acho que basta isso para o comprovar. Ao vivo tentamos ser o mais natural possível e recriar o som do disco. Não seria possível imaginar os HOLY sem esse aspecto.

Vão andar pelo nosso país durante vários dias. O que podemos esperar dos vossos concertos? Alguma ideia prévia sobre nós?

Já nos falaram muito bem de Portugal! Até hoje só ouvimos pareceres positivos. Estamos ansiosos por chegar e tocar.