De jams com o Kirk Hammett àquela lendária barriga de mármore, pouco sobra ao Matt Pike para fazer na música pesada. Não lhe faltariam desculpas para, chegado à casa dos quarenta, deixar de se preocupar em manter firme a rotina estúdio-estrada. Quem na verdade se importaria se o fizesse, quando ele acarta no lombo uma discografia inteira de Sleep, sendo também parturiente de High On Fire?

Restar-lhe-ia um derradeiro obstáculo. Largar o álcool, esse entorpecedor. E Pike fê-lo, chutou a adição para o mato e descobriu nas conspirativas teorias sobre a vida extraterrestre uma nova paixão que lhe alimenta o espírito. É nela, nesse fascínio interplanetário, que “Luminiferous” se faz gente. Basta, aliás, fixar os olhos na capa para entender que o norte-americano acredita numa civilização alienígena entre nós, de vestígios por aí espalhados e em tudo análogos à cultura maia.

O background de “Luminiferous” está carregado de signos que misturam paranoia e misticismo, ou não lhes fosse Lovecraft um amor literário confesso. A música por sua vez é High On Fire. O gorgolhar vocal de Matt Pike, porventura mais limpo e com umrange de amplitude maior [largar a bebida tem vários benefícios], qual Lemmy alucinado, mantém-se. Intocável está também a estrutura-base das composições, cruzando o thrash sincopado [“Slave The Hive”] ao sludge melódico mais downtempo que “De Vermis Mysteriis” tinha já apresentado como seu maior trunfo. É neste último capítulo que a banda arrisca a maior surpresa, onde os sete minutos de “The Cave” lembram a fundamental “Planet Caravan” dos Black Sabbath pelo lisérgico e escapista ambiente. Também nada há a apontar à produção de Kurt Ballou, que, colaborando pela segunda vez com High On Fire na engenharia de som, gravou o disco sem truques e sem passos em falso.