Quem diria que a Península Itálica se tornaria um dos mais salientes polos da música extrema europeia? Começando no desumano pesadelo que são os The Secret, continuando pelos seus bastardos conterrâneos Grime (quem admira o sludge obsceno não pode adormecer sobre esta banda) e não engavetando no esquecimento as celestes viagens dos Ufomammut, há, para lá dos temerários Alpes, muito para sorver. Até aqueles que estimam o legado dos Neurosis podem encontrar nos Lento uma banda capaz de replicar a demanda.

Centremo-nos noutra: Hierophant. De biografia curta, aberta em 2010, não há procrastinação que os amarre ao Mediterrâneo – ao segundo longa-duração em somente 36 meses, estão já assinados pela norte-americana Bridge Nine e, com Great Mother : Holy Monster, não se coibiram de traçar a negro o livrete de uma label reputada nos meandros do NYHC/hardcore melódico.

Ora, nos Hierophant lugar para melodias à Boston scene não existe. Espaço para o two-step à CBGB tampouco: desconhecem o conceito de matiné; a noite é-lhes permanente. Farejando os trilhos desobstruídos pelos acima citados The Secret, o quinteto vagueia pelo funesto crust, onde uma malévola iconografia nunca lhes abandona a pele. Até porque, se atentarmos na tracklist deste disco, rapidamente observamos que todos os temas se anunciam pelo prefixo “Son of”, o que só poderá indiciar uma estreita ligação com a Great Mother presente no título. Conceito que, apesar de não estar claro ou explícito, desabriga o flanco para nocivas interpretações – aliadas ao obscuro som dos italianos, malhas como Son of the Carcinoma ou Son of the Public Castration estão longe de apregoar cristalinos sonhos, certo?

Há uma bestialidade inerente aos 27 minutos de registo, vagueando além de qualquer denominação, idioma ou ideia. E, apesar de não transbordar originalidade, o álbum é exasperado o suficiente para nos conquistar: a cortante voz em desespero, as guitarras de baixo tom, os feedbacks carregados de ansiedade, e as típicas visitas ao sludge mid-tempo (Son of the Cathartic Cave é tão suja…) fazem de Greath Mother : Holy Monster um registo pérfido o bastante para o ladearmos com algumas obras seladas ultimamente pelo colectivo belga Church of Ra. A espaços, sente-se o cadavérico trago do black metal, subtilmente revelado nos riffs de Son of Egotistic Love e essa transposição de monolíticas paisagens nórdicas só lhes aguça a malevolência.

Sejamos justos, porém: o que os europeus aqui nos trazem não é nada que os The Secret não tenham canonicamente já estabelecido com Solve Et Coagula. Ainda assim, os fãs do género decerto encontrarão neste registo uma intragável meia hora.