Utilizando o palco como a grande fonte geracional de ideias e conceitos, os HHY & The Macumbas foram adiando o seu primeiro longa-duração. “Throat Permission Cut” vem suprimir essa tão desejada lacuna e garantir que, um documento musical como este, não possa realmente ser levado de ânimo leve. Esse será um dos primeiros elogios que lhe podemos dirigir. A fome por ouvi-lo repetidamente e o desafio de nele encontrar novos impulsos, fazem com que nos requisite muito tempo. No fundo, o melhor que um álbum pode ter: exigir também de nós um esforço para o tentar compreender na sua plenitude, mesmo que isso resulte noutro belo motivo de louvor, ou seja, a capacidade para cada um o entender da sua forma em virtude da matéria quase mística e pouco explicável na música dos Macumbas.

O esplendor instrumental começa cedo, com a procissão que “Isaac, The Throat” sugere através do tremendo e gradual progresso do tema, culminando com o incrível conjunto de sopros. Lentamente, a hipnose de ímpetos sonoros vai remetendo para aquilo que imaginamos como a Macumba, a sua mata e vegetação, a espiritualidade, a crença e devoção a entidades externas, manipuladas mediante a repetição de extensas percussões que ouvimos em “Barbaron”.

Os contínuos estímulos que “Throat Permission Cut” desperta, resultam também de uma evidente componente de experimentação. Contudo, isso não desemboca numa falta de sensações ou emoções. Pelo contrário, ninguém consegue ficar indiferente ao belo trabalho que se percepciona no trombone e no trompete em “Lewopa De Kristal”, conduzindo a uma quase permuta de almas.

As construções rítmicas que os HHY & The Macumbas criam decorrem num jogo tribal, étnico, que nos faz recordar que este trabalho tem que se tornar expansível. Tem que ser um disco do mundo, algo que não pode ficar apenas cingido à nossa capacidade de compreensão. Assim, “Reanima Eléctrica” acaba por nos iniciar a um culto complexo, baseado na manipulação de todos estes sons. Chamemos luxúria a esta quantidade cerimonial e pecaminosa de sons que podemos escutar.