As luzes mortas de vermelho mal deixavam ver o aparato imenso que habitualmente acompanha o projecto HHY & The Macumbas. Não admira pois que desta vez o colectivo portuense se tenha apresentado com nove elementos naquilo que foi um autêntico ritual de xamanismo intoxicado. Em pano de fundo, um dos grandes álbuns portugueses do último ano, “Throat Permission Cut”, mistura de ritmos tribais e dub de mergulhos profundos num mar de total hipnotismo.

A apresentação começou com uma falsa calma, embalada pela secção de sopros, lampejos electrónicos e as quase omnipresentes maracas. A (bem literal) dança foi-se adensando até os momentos mais faiscantes começarem a realçar a poderosa secção rítmica. É de resto a crescente envolvência num som só aparentemente desorganizado que mais se destaca em qualquer ritual de Macumbas: não é difícil só ter sido acordado aquando das marcações do sino que serviram como âncora e como ponto de passagem para o próximo rito.

Se a primeira parte do concerto teve este carácter de progressivo envolvimento, já os temas finais acabaram por se revelar mais directos, sem nunca perder ponta de magnetismo. Sobressaiu o flirtcom a linguagem do free jazz em desalinho rodopiante com o dub ruidoso e as linhas de baixo palpitantes que serviam de ponto estático naquilo que era um autêntico desenrolar de ondas sonoras.

Não houve regresso no final como ainda foi pedido durante alguns momentos, mas não foi por isso que logo no primeiro mês do ano aMusicbox teve direito a um momento de celebração bem especial de um projecto cuja capacidade de construir uma linguagem bem particular, e subsequentemente a recriar ao vivo, não para de surpreender.