Há quem reclame para si dotes de exorcista, apregoando a capacidade de retirar entes maléficos do corpo e mente. Com os Hexis, e, apesar de esta conquista não vir apenas com “Abalam”, institui-se uma nova vertente contrária a esta prática. Com todo o caos sonoro abafado dos dinamarqueses, impregnamos o nosso corpo de más sensações e instintos claramente reprimidos pelo bom senso, chegando a soar a punição toda a demência que colocam em jogo.

Ao segundo lançamento, constatamos que as noções de catástrofe e negatividade ainda estão mais presentes do que no registo de estreia. Toda aquela impressão de quarto escuro parece ainda mais apurada, com todos os instrumentos a soarem asfixiantes, ao que se junta a voz insana e sufocante de Filip. Quem procure conforto neste longa-duração terá uma experiência desagradável e pouco apropriada. Quem procure uma definição para os seus fantasmas terá resposta para todos os seus tormentos, encontrando a sua bênção.

Sem qualquer noção de harmonia ou serenidade, os Hexisapresentam uma interrupta devastação e, mesmo que se trate de um álbum com curta duração, o factor temporal nem chega a gerar qualquer motivo de preocupação. A dolorosa experiência a que somos sujeitos é tanta que parece quase interminável. Tudo é providenciado ao extremo, com o abafo constante do acorde e dofeedback de guitarra, a par da incisiva e grave toada da bateria.

A divisão temática acaba por funcionar apenas de forma estrutural, uma vez que “Abalam” poderia ser uma peça única, contínua e sem espaçamento. Todos os temas transmitem a mesma ideia de aniquilação, demonização e opressão. Mesmo que tenhamos facilidade em encontrar paralelismo nas várias faixas e sejamos capazes de encontrar pontos de ligação, a escuta nunca se torna cansativa, não deixando de ser curioso a nossa capacidade de atracção por algo que se torna tão sujo e possessivo. Estranhas mentes as nossas.