Blood of Elijah: os cento e um segundos deste tema, repletos de um hardcore tóxico e cheio de más intenções, poderão ter feito com que muitos – aqueles que sempre negam tréguas ao repouso – se tenham mantido atentos ao latejar dos Hessian desde o seu EP homónimo editado em 2011. O ano passado, quando o Verão surgiu às portas do hemisfério norte, os Amenra, unindo-se a estes seus compatriotas, decretaram o seu próprio pleno inverno e arremessaram um split onde estava uma tal de Manegármr. Coincidências a mais? Nem por isso. Os Hessian não só têm o baixista dos autores de Mass V (que neste projecto veste o fato de guitarrista), como ainda vão buscar aos The Black Heart Rebellion outro conspurcado crente da Church of Ra. Precisamente nessa Manegármr, os Hessian entregavam o derradeiro clímax na alma calejada de Colin H. van Eeckhout, esculpindo uma tormentosa cadência post-metal, digna dos melhores momentos que a cidade de Kortrijk já testemunhou. Tudo em família.

Outros (quase) 365 dias volvidos e os Hessian mostram que não vieram à tona a fim de replicar jogo no tabuleiro sagrado dosAmenra: Ascension, tema que desprende a fechadura deste seu primeiro trabalho de longa-duração, assinado pela Southern Lord, não só nos mostra um ritmo descaradamente mais ríspido, como uma atmosfera polvilhada de aparições black metal, consistentes por demais nos riffs de Serpent’s Whisper ou Hollow Eyes. Nem o típico adorno do blast beat é negado – por vezes ele surge (Swallowing Nails), rendendo a basilar farpela rítmica do crust e transportando os Hessian para um altar que de sagrado pouco tem.

Os dez temas de Manegármr tresandam a profanação e há uma óbvia psicopatia na voz de Bram. Espanto? Também não, toda esta estirpe belga não se esquece dos pesadelos a preto e branco de Dwid Hellion e invoca-os sempre que há uma Father of Greed para regurgitar em processo lento ou uma Vãmãcarã para carpir num nublado shoegaze pós-apocalíptico. É justamente esta explícita atmosfera que faz de Manegármr um grande disco de hardcore metálico e não “mais um” para a gaveta. Poderemos negá-lo quase, quase até ao fim, mas a maldita faixa título – agora repartida com Mother of Light, em oposição à versão do split – afogar-nos-á numa torrente de insânia. Responsabilidade de Eeckhout. Ámen.