O esqueleto de todas as grandes histórias perfaz-se nos mais simples adágios. O de Hauschka, nestas noites, bate à porta de quem não está e chama por quem não escuta – são cidades por cumprir, póstumas por defeito, arquitecturas de um piano non sequitur como o de Władysław Szpilman solto nos braços de Varsóvia.

Esses irreais axiomas de Hauschka, escritos em “Abandoned City”, transpõem-se violentos no Maria Matos. Como se Kowloon ressuscitasse numa perpendicular à Avenida de Roma, de mastigadas paredes e janelas mortas ao vento. Salpicos de laraja-ferrugem e beijos de chuva ácida que adoecem. Ruas que se tornaram cachimbos do tempo e roedores ansiando o despejo que não chega: estão sós. Eles, Hauschka.

O alemão, de piano em câmara ardente para que lhe vejamos entranhas, reergue “Elizabeth Bay” ao descontrolo. Por querê-la num repente, os dedos fogem-lhe pela sofreguidão. A nostalgia de estúdio derrotada pela verve de palco. Espasmos mecânicos de um instrumento submerso em bijuteria que lhe muda o tom e lhe entala a garganta. Hauschka, no absorto anseio de trazer o sonho à realidade, não se livra do erro, do passo em falso. Engana-se. Avenidas de melodia tombadas pelo musgo, estações de comboio onde os jornais já não chegam. São assim, como as nossas, as cidades por cumprir: imperfeitas.

Hildur – o contraste. O bucolismo nórdico e a natureza que floresce por direito atávico. O timbre de anjo e o violoncelo como maestro de runas: subtil, dócil, ténue. Se nos dessem escolha, quereríamos saber até onde a islandesa e Hauschka juntos poderiam ter ido. Aquela peça comungada, a única de toda a noite, foi o que de melhor levámos.