As escamas de ferro, a preto e branco listradas naquela tela-nenúfar, segredam-nos uma solenidade firme: Grouper está além de Liz Harris. O ela mostrar-se em palco, envolta num azul blusão de luz menor, descalça marchante como se o Maria Matos lhe fosse quarto, é uma didascália solta pela margem. O acto principal não existe naqueles ombros esquálidos, naquelas mãos como peanhas de algodão que acorrentam murmúrios de som numa jura de silêncio. A cambulhada de pedais e cabos, o elíptico vaivém entre o ligar e o desligar, os loops que oscilam num dilúvio-cinza pelos intervalos – é a dimensão de Liz. A outra, a de Grouper, vive-lhe acima, nas aquosas projecções vídeo tolhidas de sépia e capturadas em ângulos irreais de ruína. O cerimonial som-imagem é Grouper, é o concerto. Liz é quem lhe outorga movimento, um operário recluso na tímida fornalha que ressoa. Mas, se ela por ali não estivesse, ou se se escondesse num plano morto onde não lhe perscrutássemos os movimentos, alterar-se-ia algo?

Pelos nevoeiros de “Wide”, feito nas suas serenas tempestades de grumo, ainda “Ruins” não havia, caminhou Grouper. Ali, numa flutuação-sombra de timbres ascéticos, nasceu um esfíngico sonilóquio que engoliu Lisboa em silêncio; ninguém se mexeu, ninguém arriscou uma sílaba. As palmas foram a medo. Os borborigmos guardaram-se para lá do sonho.