Liz Harris traz nos dedos alquimia. Quem mais, se não ela, poderia tingir de branco-neve as marés de Aljezur? Enregelá-las num definhamento plácido, sussurrando de morte como “A Estepe” de Tchekhov, até ao último encontro entre água e terra. São assim os concílios de uma mulher só. O piano, na ausência de púlpito [se o há, somos nós, incógnitos e, ao longe, disformes], escuta-a.

“Ruins” transmite na caligrafia que apenas a Grouper reconhecemos. Os seus circulares exercícios intimistas – não há neste álbum um princípio, um meio e um fim, apenas a sensação estanque de ficarmos, como Sísifo, condenados a regressar à casa de partida – reflectem em quatro paredes brancas. Sentimos, ouvimos os fugazes ecos de Liz, tombados numa modesta 4-Track– medium entre o comité introspectivo [dela] e a guarida emocional que, afastados, lhe damos.

Críptica, sempre, de Grouper vamos desvendando apenas palavras soltas. As sensações, grafadas num corrente de ar deambulante entre “Ruins” e nós, são as que nos estrangulam desde “Dragging A Dead Deer Up A Hill“, planantes sobre um isolamento auto-infligido, tão terapêutico quanto fatal. Haverá diferenças: aqui, encontramo-las despidas, ténues, tão frágeis quanto um qualquer castelo de areia que Harris arriscasse desenhar na praia. É a norte-americana na sua mais transparente encarnação, permitindo que através dela escutemos os sapos, os grilos e uma chuva que, num repente, se solta lá fora.

A outra diferença, claro, situar-se-á na proximidade. “Ruins”, com excepção da última faixa, foi todo ele gravado enquanto Liz esteve em Aljezur há três anos, a propósito de uma residência artística organizada pela Galeria Zé dos Bois. Não esconde a compositora que este álbum é precisamente um «documento» sobre as suas «caminhadas diárias» pela vila. Uma reportagem minimalista que descobre nas ruínas espalhadas desde o cerro até ao mar as inesperadas confidentes de uma vida submergida em «raiva política e detritos emocionais».

Não poderemos, contudo, dizer que “Ruins” é um álbum-catárse. É pouco tangível que Grouper tenha nas «enfraquecidas estruturas» de Aljezur encontrado cura – a tristeza aferrolhada na garganta quando murmura “Call Across Rooms” confidencia, de olhos postos no chão, um desespero que nos relembra a soluçante Jean Ghetto em “So You Wanna Be A Superhero” – e lá vêm as saudades de Carissa’s Wierd.

Talvez, então, os destroços relembrem Liz Harris do inevitável. Quando desaparecer, eles por ali ficarão. Será só mais um dia.