Há dias em que se vai ao Greg, e noutros dias, bem mais escassos, em que se vai ver o Greg, o Dulli, aquele que solidificou uma carreira com um percurso tricoteado na voz e guitarras de uma banda de culto do rock alternativo dos anos 90, os Afghan Whigs. Esse tempo já lá vai, e com ele as guitarras mais estridentes, entre o fuzz e a bizarria própria que deram à luz discos marcantes como Gentleman (1993) e Black Love (1996). Agora a dor, a urgência da libertação das impurezas não carbónicas do corpo de Greg Dulli executa-se noutros moldes tónicos, num acústico polvilhado com esguichos de soul e folk, os quais ajudaram a trilhar o percurso dos mais recentes Twilight Singers e The Gutter Twins e ainda do próprio filho da Califórnia que não deixou de se aventurar a solo, lançando em 2005 Amber Headlights.

Sem surpresas, aquela que é a primeira digressão a solo de Greg Dulli, apontava para os caminhos mais recentes e para uma mescla de revisitação dos seus projectos já referidos, Twilight Singers e The Gutter Twins; Sem surpresas também, seriam destapadas algumas novas faixas dos Twilight Singers, as primeiras em quatro anos, e que irão quase de certeza integrar um prometido disco para 2011; Sem surpresas, o cenário confirmou-se, perante um Santiago Alquimista meio despido, ou meio vestido de cores humanas, mas com a garra suficiente para receber um senhor, e a fatiota denunciava-o, que não se encosta a um canto num solilóquio profundo, recordando, agachado e arqueado, com respiração pesada, os seus belos e valentes rabiscos musicais.

Acompanhado pelo guitarrista Dave Rosser, companheiro de Greg nos The Twilight Singers, e pelo contrabaixista, violoncelista Rick Nelson, Dulli desejou ser os Walkmen para poder ter dado o nome de Lisboa a um dos discos nos quais cunhou a sua marca, ou pelo menos dar a cada música os nomes de cada cidade pelas quais irá passar a digressão: Porto, Barcelona, Antuérpia… – era o desejo sincero de vincar lanços com a cidade de Ulisses. Mas nada disso foi preciso, bastando a simplicidade para dar um nó sólido com os presentes e com a cidade, ou pelo menos aquele pedaço de cidade. Já com surpresa, aos primeiros acordes de Saint Gregory, percebe-se que a voz de Greg Dulli continua monstruosa, sólida, visceral, espantosa, capaz de fazer ecoar no recanto mais profundo e inacessível dos mistérios do ser humano, e especialmente num deles – o amor. Sim, o amor, esse tópico tão banal, mas ao mesmo tempo mal reciclado na letras do universo rock.

Com 16 canções desfiladas, entre os borrões semi-folk e semi-soul, nas quais se incluíram A Love SupremeLet Me Lie To You ou Summer`s Kiss, ficou a noite tingida pela explosão da fúria de uma carreira que pedia algo como isto, uma experiência mais intimista, mais centrada na figura de Greg Dulli, a alquimia de uma tour em nome próprio, coisa que nem com Amber Headlights tinha acontecido. O público presente acenou em concordância e deu o seu toque também nos borrões, tornando-os mais definidos, e mais compreensíveis, mas em nada que se possa comparar a uma espécie de teste Rorschach, com as interpretações dúbias, e por vezes mal intencionadas. No novelo, claro, o prometido era devido, e Dulli, não deixou de o mencionar logo de inicio, havia lugar a 3 novas canções dos Twilight Singers – a primeira tomou posição à terceira canção da performance, a segunda em nono, e a terceira, prometida como a última da noite, à 16ª – coisa da boa!!!, resmungou-se com acertividade, mas Dulli ainda não podia rumar ao Porto.

A segurança decidida e harmónica do público requisitou o frontman dos saudosos Afghan Whigs para um encore, mas diga-se a verdade, era mais do que esperado. Afinal, o teclado ainda não tinha sido usado, e os dedos de Greg tinham de o trespassar com a mesma dedicação que o fez com a guitarra. Foram mais 3 faixas, mais 3 momentos frenéticos, ainda mais vivos, mais quentes, mais uivantes… Como quem corre por gosto não cansa, certamente que a noite podia estender-se ao infinito, mas não era possivel – o Porto esperava-o na noite de dia 3 de Novembro, e a memória de cada um precisa de momentos na medida exacta para que possam ser repescados e recordados com um sentido apurado. 19 canções foi a medida exacta.