Logo na primeira música, na primeira frase cantada pelo vocalista Joakim Nilsson, fica explicada a verdade insofismável sobre os Graveyard: “I got no friends, only people that I know.” Pudera, acrescento eu, pois os amigos desta locomotiva sueca devem ter queimado o cérebro no primeiro Woodstock, devido ao abuso de ácidos, ou morreram há pouco tempo, com o coração enfraquecido pela idade, vítimas do trauma de “há porrada ou não?” da Guerra Fria.

Não, estes quatro suecos não são velhos, nem tampouco estão na meia idade, mas, ouvindo Hisingen Blues, é impossível não nos questionarmos sobre a possibilidade de violar a linha espaço-tempo e viajar até há umas décadas atrás, quando este hard rock, heavy metal deu os primeiros passos, pelas mãos dos Zeppelin e dos Sabbath. Os Graveyard soam como se tivessem sido desenterrados directamente dos anos 70.

O caso dos Graveyard é um daqueles singulares em que a descontextualização temporal não afecta e em que a boa imitação até agrada, ou seja, é impossível não reconhecer as claras influências do quarteto, mas em Hisingen Blues soa tudo tão genuíno que não há como ficar maldisposto com isso – e quantos de nós é que já não passaram pela situação oposta, aliás, tão comum?

Essa é a magia de ouvir o mais recente álbum de Joakim Nilsson,Jonatan Ramm, Rikard Edlund e Axel Sjöberg, a de estar perante uma obra fora do seu tempo, mas que mantém intacto os artefactos recolhidos durante viagem entre os dias de hoje e os de há quarenta anos atrás. Não é por acaso que o que podia ser um riff claro de Deep Purple acaba por desaguar numa abordagem típica dos Queens of the Stone Age de Josh Homme, como acontece às claras em Buying Truth (Tack & Föråt).

Apesar de a colheita dos Graveyard ser rica, é mesmo na banda de Ritchie Blackmore que os suecos melhor se reflectem (não, aSmoke On The Water não conta), que o diga a faixa de aberturaAin’t Fit to Live Here. Contudo, esse reflexo consegue-se sempre com a capacidade invejável de se inspirar na lentidão de Iommi, no génio de Page ou no som gritante de Hendrix, sem colocarem de lado a força dos grandes vocalistas de então, desde Robert Plantà malograda senhora Joplin. Nisso, No Good, Mr. Holden revela-se uma verdadeira iguaria de influências, juntando as acima referidas e passando a mão pela força do desert rock e do stoner.

É esta mistura bem estudada e preparada a preceito, graças ao método de gravação utilizado pelo produtor Don Alsterberg, totalmente analógico na era do digital, que resulta num Hisingen Blues sem verdadeiras novidades (se excluirmos o facto de eles soarem mesmo como se tivessem quarenta anos de estrada), mas cheio de coisas boas. Perde, em algumas situações, porque nem todos os riffs têm a capacidade melódica de levantar os mortos, não obstante o facto de terem todos energia suficiente para isso – não se deseja outra coisa de um registo que joga ombro a ombro com os clássicos –, mas, ao vivo, deve ser uma experiência alucinante.

Os físicos andaram a perder tempo a descobrir com quantas dimensões se tece um universo. Os Graveyard provam claramente, em Hisingen Blues, que não é preciso inventar uma máquina para fugir ao tempo. Se o Einstein soubesse disto, tinha formado uma banda de prog-rock.