Depois de rumores e notícias sobre o fim do projecto, o trio de tango electrónico decidiu manter-se no activo com o novo Tango 3.0 e com uma tourné que passou esta noite por um lotado Coliseu dos Recreios. As recepções foram quase as melhores, com uma plateia que, à parte de um ou outro casal que tentaram mesmo (!) dançar o tango, não se mostrava disposta a mexer-se, mas que sorveu cada batida vinda do palco.

A música estava, aliás, readaptada para provocar movimentações na plateia o que, de certa forma, empobreceu as canções, principalmente na secção rítmica, a cargo dos DJs de serviço e mentores dos Gotan Project. De resto, a riqueza técnica dos executantes não teve mácula, tendo mesmo pormenores curiosos com óptimos resultados (como é o caso do violino, por exemplo, que em algumas músicas se impunha muito graças ao delay, que dava uma sensação mais “orquestral”).

Tendo isto em conta, avancemos, ou recuemos, até ao início do concerto. Só com guitarra, acordeão, violino, piano e uma vocalista, o grupo de Paris começou o concerto sem batida alguma. Despidos da componente electrónica, mas com uma roupagem clássica do tango, começaram por agarrar pelo lado mais suave o público, claramente orientado para o género — ou antes desorientado para o vulgar concerto de música Pop. Já a música ia avançada, quando, numa entrada nada discreta, vindos detrás dos cortinados (semelhantes às tiras com que se evitam as moscas nos estabelecimentos comerciais clássicos, só que neste caso eram correntes), os DJs ocuparam os seus lugares nas pontas do palco para começar com a festa e entrar directamente em Epoca, depois de ter sido percorrida pela restante banda Cuesta Abajo.

Não raramente, um dos senhores das turntables descia do seu estrado para se dedicar a um baixo ou a uma guitarra. Exemplo disso será Rayuela, título da obra-máxima do escritor de origem argentina Júlio Cortázar, que os Gotan Project procuraram homenagear, onde a música se viu crescer com a presença de um baixo orgânico e não electronicamente reproduzido. No cortinado de correntes, eram projectados vídeos que serviam de verdadeiro complemento à música, principalmente se tivermos em conta que a maior movimentação que se verificava em palco era por parte dos DJs — e que por motivos logísticos óbvios não se podem dar a grandes alaridos.

Os vídeos, não só pelo pouco que se passava em palco, tiveram um enorme peso na música, muitas vezes servindo de contexto para os temas dos Gotan Project. Uma vez mais, Rayuela é disso um perfeito exemplo, sendo que os vídeos mostravam não só as letras entoadas nos refrões da canção, como ainda tinham imagens de um jogo que podemos, algo precipitadamente, assumir tratar-se do jogo da amarelinha (tradução para português de Rayuela). Já em De Hombre a Hombre, o efeito produzido pelo apoio visual foi diferente: retratava duas mulheres a dançarem o tango.

Percorrido novo álbum e algumas música mais conhecidas da banda, contando ainda com a inevitável passagem pelo single de avanço do novo álbum, La Gloria, o trio parisiense viria a fechar a sua actuação com Panamericana; assim se pensava. Depois de um forte aplauso, acabaram por regressar ao palco com a já clássica Queremos Paz num encore de quatro músicas, que teve direito, ainda, a um pequeno extra de uma música.

O concerto pecou, como já foi dito, pela escolha mais festiva das batidas para cada música, sendo que não se mostrou constante — se resultou na perfeição algumas vezes, essa acabou por ser a excepção que comprova a regra; melhor não foi, também, a duração do concerto, visto que se tocaram 21 canções. Mas reformulemos: para um fã, foi o concerto ideal. Deu para dançar, bem ou mal, e os Gotan Project tocaram que se fartaram.