ÕO Goat têm sido descritos como uma das bandas mais obscuras a surgir no panorama musical dos últimos tempos – certamente que isso não reflecte a alegria inerente à sua música e ao seuWorld Music, a tresandar à new wave, como David Byrne sempre quis que ela fosse, voltada para o mundo. Não que a grande proposta dos suecos seja um colosso de influências da Ásia à América, nem que seja revolucionária ao ponto de ter algo a acrescentar em todas as partes do globo. Mas porque, talvez melhor e mais humilde, tem a sensatez de ser aquilo a que música do mundo se propõe: sincera.

Não há dúvida nenhuma de que os Talking Heads mais avançados, totalmente africanizados, com os dois pés bem à frente dos skas e dos two-tones, ficariam orgulhosos da percussão de congas que dá um gingar tão característico a World Music e que caem tão bem na languidez emancipadora das duas vocalistas, que se expressam como se pertencessem aos B52s (uma ideia que se pode resumir em Run to Your Mama). Mas nem só de tambores monotónicos se faz o disco dos Goat – a guitarra, entre a desenvoltura fria e rítmica do tropicalismo e o calor do rock mais psicossomático, está para o baixo e a sua riffaria sabbathiana como os pés para as pernas. E é consensual que são precisas ambas as partes da anatomia para corresponder ao grito de dança que surge constantemente ao longo do álbum e que encontra como excepção uma mais solene Goatlord e outra mais expansiva Det Som Aldrig Förändras/Diarabi. Música esta que, ainda assim, não é menos dada à santidade do sacrilégio da carne do que as demais faixas do alinhamento e onde as duas facetas da guitarra se encontram em união perfeita.

O que faz de Goat uma proposta interessante, aliás, preponderante, não é, certamente, o facto de serem obscuros, nem tampouco incrivelmente inovadores. Os Goat são uma mistura do que resultou melhor no rock e no punk ao longo das últimas décadas, e encontram nesse ponto de equilíbrio uma alegria contagiante. World Music é um título tão enganador quanto esclarecedor do álbum. Os Goat podem vir de sítios que não conhecem a luz do sul mais do que seis meses do ano, mas certamente que conhecem o significado de adorar o astro que nos aquece os corpos, como, de resto, acontece em todos os lugares conhecidos. Ou não fossem eles igualmente eficazes a fazê-lo.