Na penumbra, soltos como didascálias pelas margens, estávamos nós – público. Saídos das habituais trincheiras, avançámos sobre o desconhecido, terreno subversivo para quem não mais conhece do que o consenso a priori decretado entre artista e plateia: eles lá em cima pregando, nós cá em baixo ouvindo.

Nesse rasgar de protocolo, bofetada anti-etiquette, morou parte do charme. Foi como um segredo nosso, escondido atrás da cortina que do mundo nos abrigou por sessenta minutos. Chamemos-lhe uma experiência uterina, um return to the womb momentâneo, sem degrau que dividisse orador e audiente. A confidência que ali se fez, nas costas de uma cidade que adormecia, talvez tenha sido o epílogo de “Blue Train”. Escrito no improviso. Como um miúdo que, desconhecendo mandamentos e ortodoxias das belas artes, prossegue desenhando.

Talvez tenha nascido nas avessas de Lisboa a derradeira composição, o último vagão, que o comboio precisava. E, se um fantasma não mais for do que o passado desejando bater no ombro de uma realidade que lhe é perpetuamente nova, podemos negar que por ali, sem bilhete e sem reserva, tenha estadoColtrane? Num aprumo gentil, numa elegância cortês, guiando a locomotiva agora completa pela trepidação de Maranha, a pluralidade de Ferrandini e o arrojo de Hungtai – ele, comoMorrison anunciava, cada vez mais lagarto sem receio.