O terceiro e último fim-de-semana do FUMO arrancou na sexta-feira no bonito Museu do Trabalho em Setúbal, com as actuações de Tio Rex e Filho da Mãe. Terminou no dia seguinte no Fórum Municipal Luísa Todi, com as prestações de Um Corpo EstranhoPop Dell’Arte. Ao contrário do que aconteceu no fim-de-semana anterior, o público compareceu em bom número nos dois dias, talvez motivado pela presença de artistas setubalenses – Tio RexUm Corpo Estranho.

No Museu do Trabalho, no meio do bonito cenário baseado na antiga fábrica de conservas que em tempos funcionou naquele mesmo edifício, Tio Rex foi o primeiro a actuar. Com uma guitarra acústica a tiracolo e voz grave, o jovem músico setubalense actuou para uma plateia que, em grande parte, estava ali para o ver. Jogando em casa, Tio Rex respirava confiança e falou muito entre as cantigas, nomeadamente para muito justamente elogiar Filho da Mãe, que se seguiria a ele.

Num desses elogios, disse “isto é uma lição de como se toca guitarra mais ou menos, a seguir teremos uma lição de como se toca guitarra a sério”. Noutra intervenção intitulou-se “aprendiz”. Ambas observações estão mais que correctas e é bom saber que Tio Rex tem consciência da sua ainda pouca capacidade para estar à altura das exigências. Ainda assim, não se coibiu de ripar o universo da folk e da country norte-americana, com poemas recheados de imagens batidas e banais, dignas de alguém que ainda está a começar. Tio Rex esforça-se mas ainda não consegue. Talvez mais tarde.

Só à terceira música Filho da Mãe se dirigiu ao público e logo para dizer que “este não é o melhor dia para tocar, mas às vezes esses são os melhores concertos”. Acertou. Independentemente de tudo, Filho da Mãe deu um grande concerto que mereceu entusiásticos aplausos do público.

Em quarenta cinco minutos tocou composições do seu primeiro disco Palácio, improvisações e temas do próximo disco a sair “talvez no final deste ano”. Sobre as novas composições falou pouco, mas percebe-se que ainda são objectos em construção e um pouco diferentes daquilo que lhe escutámos em Palácio.

Com uma fúria controlada, mas, aparentemente, muito sentida, Filho da Mãe deu uma lição de como o virtuosismo por si só não basta. É certo que poucos como ele dominam as cordas da guitarra, mas isso seria inútil se não dominasse a melodia e o ritmo. Aquilo que Filho da Mãe faz é simples mas complexo: constrói, vai destruindo até voltar ao objecto original. É sempre assim, mas não é repetitivo. É sempre assim, mas não é automático. É sempre assim, mas encontramos nisto uma sinceridade fingida, que toca, não só as cordas da guitarra, como as cordas interiores de quem ouve. No fim fica a ideia que é em palco que todo esse talento é verdadeiramente exposto, longe da frieza das gravações dos discos.

Posto isto, uma última nota: é verdadeiramente lamentável que a organização tenha decidido manter o bar aberto durante os concertos, provocando um incomodativo ruído de fundo a menos de cinco metros do palco. Não se compreende. Os músicos, acima de tudo eles, e o público não mereciam.

No sábado foi a vez de Um Corpo estranho subir ao palco de um Fórum Municipal Luísa Todi bem composto, mas não cheio. A julgar pelas várias e efusivas manifestações do público, também eles, à semelhança de Tio Rex no dia anterior, jogavam em casa.

Recém inaugurado depois de uma longa e total remodelação, o Fórum oferece condições ímpares em Setúbal, mas há um pormenor que joga contra todos aqueles que ali actuam: o palco é enorme e obriga os artistas a ficar, à partida, muito distantes do público. Aqueles que, como Pop Dell’Arte, têm muitos anos de rodagem, sabem contornar o problema de uma forma ou de outra. Os Um Corpo Estranho não conseguiram, estiveram demasiado rígidos e frios em palco. Não souberam capitalizar o apoio do público e limitaram-se a tocar as canções de forma muito certinha e competente. O público, mesmo assim, aplaudiu e gostou.

Primeiro entrou a banda, depois João Peste. Prova cabal de que os Pop Dell’Arte são João Peste e os outros, sem que nada de negativo haja nisso. João Peste tem carisma e anda nisto há muitos anos. Enche o palco sem fazer muitos movimentos. Conquista o público sem precisar de se dirigir a ele. Não há muitos assim. Num atitude ora crooner, ora rapper, ora rocker, João Peste raramente faz descansar aqueles que o ouvem, dando tudo com uma aparente facilidade, só ao alcance daqueles que nasceram para estar num palco.

Num concerto com cerca de duas horas, os Pop Dell’Arte revisitaram toda a sua carreira com temas dos vários discos. Com poucas pausas entre canções, João Peste, no seu jeito muito teatral, mas contido, parecia estar ausente no sítio onde as canções foram escritas, dando um tom quase onírico a tudo o que se viu. Sem cenários ou grandes jogos de luz, a banda soube acompanhar Peste sem se sobrepor a ele, mas não se deixando apagar.

Apesar de muita gente ter abandonado o Fórum depois do concerto da banda de abertura, os Pop Dell’Arte conquistaram quem lá foi para os ver. Mais de vinte canções, dois encores e vários momentos sublimes; nomeadamente quando tocaram Noite Escura em Campo-de-Ourique (com João Peste acapella), My Funny Ana Lana, All You Need is Money e, já no encore, Juramento Sem Bandeira.

Sonhos Pop foi a música com que terminaram este concerto que merece ser recordado como o melhor do FUMO 2013, a par do concerto de Filho da Mãe. Felizes daqueles que lá estiveram para ver e ouvir.

Para ver mais fotografias deste último fim-de-semana do FUMO,segue até à página do PA’ no Flickr.