Quem trilha os corredores do tumblr, seguramente ter-se-á cruzado com a seguinte citação: “a arte deverá confortar os desconfortados e desconfortar os confortáveis.” Propagada ad infinitum, a sua aplicação até poderá ter todo o nexo na maioria das criações que buscam abrigo sob o chapelão artístico – mas há desafios que até para os afligidos se revelam por demais intragáveis e dessossegados.

É exactamento o caso de Rudiments of Mutilation. Progénito de uma banda acabada de se despir da convulsa adolescência, ele é o seu segundo episódio discográfico de longa-duração e atira os Full of Hell para a vanguarda dos mais violentos e tétricos projectos da actualidade. Se a sua posição ficou bem trilhada em 2011 com o debute Roots of Earth Are Consuming My Home, os jovens norte-americanos cimentam agora uma inquebrável barreira na música extrema desta década. Armas de arremesso? Powerviolence, sludge, hardcore e uma natural aptidão para incorporar demenciais passagens electrónicas à Bastard Noise.

É precisamente por aí que Rudiments of Mutilation arranca – os dois minutos de Dichotomy são o abrir da Caixa de Pandora, onde os demónios do vocalista Dylan Walker se propagam nos seus excruciantes berros – dignos do aplauso de Alan Dubin -, devidamente envoltos nas agudamente dissonantes power electronics e numa bateria que antecipa uma descarga pouco meiga. Vessel Deserted confirma-a, em mais cento e vinte segundos ilustrativos daquilo que são os Full of Hell: arranque crispado ao sabor do powerviolence/crust, para logo terminar numa vastidão capaz de recordar os melhores tormentos dos Grief.

O que distingue estes miúdos de todas as paletes de bandas que por aí circulam a tocar “hardcore extremo”, é a sua sincera e convicta loucura. Basta dar uma olhadela por alguns dos seus vídeos ao vivo para perceber que não há nada de gimmick no lunatismo que empregam; segundo Dylan, rapaz cujos espasmos corporais em palco não enganam, a hostil e caótica Throbbing Lung Fiber tem esta “doce” explicação: “não é metafórica e não esconde qualquer significado. É uma narrativa que detalha uma família a ser queimada viva. As descrições na letra sobre ossos a estalar no calor e o cheiro a cabelo queimado relatam exactamente isso. Não há mensagem, apenas dor sem significado.” Os Full of Hell são ódio corpóreo, álcool etílico a verter sobre chagas; e, caso o abrasivo groove de Indigence and Guilt, berrado a várias vozes, não vos chegue, deixem o disco continuar.

Se em Roots of Earth Are Consuming My Home já nos tínhamos apercebido das qualidades dos norte-americanos quando proclamam velocidade, Rudiments of Mutilation ferve-nos como nunca quando o lume se torna brando. A combinação intermédia feita por Embrace e Lord Is My Light revela uns Full of Hell doutos em criar extensas passagens atmosféricas impregnadas de feedback, distorcidas linhas de baixo e reverberantes gritos, que em nada embaraçariam referências como os Khanate – foi James Plotkin o responsável pela masterização do disco, já agora. A questão é essa: em 2013 só com toques de magia se poderá criar algo extremo e simultaneamente original. Conscientes em pleno do facto, os Full of Hell sabem que aquilo com que nos magoam não deixa impressões digitais inéditas, mas a sua entrega e honestidade é por demais compensadora.

Horrível, tenebroso, masoquista, pérfido – Rudiments of Mutilation transporta em si toda a crueldade do mundo e é enorme por isso mesmo.