O grindcore, por si só, é um género que costuma gerar muitas bandas prolíficas. É normal, é um tipo de música assente em faixas pequenas, splits, colaborações… Ainda assim, poucos abusam tanto dessa ideia como este quinteto canadiano. Em pouco mais de uma década de carreira, os Fuck the Facts lançaram quase quatro dezenas de splits, um punhado de EPs e oito LPs. O último deles é este Die Miserable, o terceiro lançamento da banda pela mui respeitada Relapse. É um disco que não deverá converter nenhum descrente no talento do grupo, mas é uma adição respeitável à carreira de Topon Das e companhia e deverá deixar satisfeitos os fãs.

A grande novidade em Die Miserable é a utilização que o colectivo dá às melodias de guitarra, que se infiltram aqui e ali no caos e peso bruto. Os últimos dois discos já tinham mostrado uns Fuck the Facts melódicos, mas nunca como em Die Miserable. Até com solos eles experimentaram – é ouvir a lead no início da segunda faixa, Cold Hearted, e tentar evitar as comparações com os alemães Necrophagist. Um novo rumo, sim senhor, por onde os canadianos nunca se tinham aventurado. Nem o sweep picking quis faltar a este festim de violência sonora. Talvez esta mudança tenha sido motivada pela adição do guitarrista Johnny “Beige” Ibay, que se juntou à banda em 2010, para fazer parelha com Topon Das.

O que se mantém mais ou menos na mesma é a forma como os Fuck The Facts misturam o dissonante e o groovie, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Algo que sempre fizeram e muito bem. A Coward’s Existence é, provavelmente, o melhor exemplo disso e a melhor faixa do disco, que consegue ser diverso, sem chegar à vertente progressiva que marcou Stigmata High-Five, de 2006, (provavelmente o melhor disco grind desde…não sei bem quando). E há algo de muito sério e político nas letras da vocalista Mel Mongeon, que tem, novamente, uma performance vocal incrível, capaz de deixar muito homem de barba rija vermelho como uma pimenta, a corar de inveja. Longe vão os tempos das letras cómicas e da febre do mullet core.

O único aspecto em que Die Miserable perde em relação ao seu antecessor, Disgorge Mexico, é na produção, que dá pouco espaço aos graves e que, com isso, corta o peso de alguns riffs. Mas nada de muito importante. Em poucas palavras, mais um bom disco dos canadianos e uma boa alternativa para quem procura um grind/metal extremo criativo e pouco tradicional.