Em 2010, o produtor britânico Matthew Barnes, através do projecto Forest Swords e com o longa-duração “Dagger Paths”, conquistou adeptos que se regozijavam com o dubstep, mas também quem procurava batidas menos soturnas e mais ecléticas. “Engravings”, lançado em 2013, confirmou Forest Swords como um dos projectos mais sólidos no universo da electrónica atmosférica.

Matthew Barnes deve ter sido um daqueles miúdos danados para competir com os adultos na construção de puzzles, tal a capacidade de encaixar sons díspares, desde sopros tribalistas, guitarra tuareg, xilofone e órgão noctívago a ruídos citadinos. Espasmos sonoros pontuais cuja causa é desconhecida, mas que resulta em música acessível porque tudo é encaixado no sítio certo, no timing perfeito.

Depois de uma passagem pelo Festival Semibreve, em Braga, o produtor veio, pela primeira vez, apresentar “Engravings” à capital – o próprio fez questão de frisar. Na noite de terça-feira, o Musicbox provou a capacidade da música de Forest Swords embalar corpos, de modo inconsciente e incontrolável.

Matthew Barnes entrou em palco e colocou-se em frente à maquinaria, de lado para o público, deixando a tela como protagonista. Previa-se que os vídeos projectados não seriam mero adereço. Após um prelúdio, surgiu o baixista que o acompanha e que se posicionou do outro lado do palco. Frente a frente, através da densidade dos graves, provocaram de imediato o primeiro tremor de terra da noite. Por incrível que possa parecer, a sonoridade de Forest Swords fez estremecer o Musicbox e levantou pó – o vídeo exibia as partículas em slowmotion. Foi este o ambiente provocado pela apresentação, quase na íntegra, de “Engravings”

Cada tema que se iniciava correspondia a um exercício de relaxamento. Fechava-se os olhos, embrenhava-se num sonho e levitava-se por universos transcendentes. Com um carácter transgressor e malandro abria-se os olhos sem que a música terminasse e contemplava-se o público numa dança lânguida, serpenteante e ininterrupta. Pelo contrário, Matthew Barnes, de olhos arregalados, estava acordado e extasiado. Do início ao fim cambaleou freneticamente a cabeça e o seu corpo parecia em estado de transe. Assumiu-se como maestro que chegou a tocar guitarra em “Ljoss” e “Irby Tremor”. O baixista foi discreto e as imagens projectadas eram coerentes com os videoclips de Forest Swords. Público e músicos estavam satisfeitos, embora demonstrassem reacções distintas.

Estavam decorridos apenas cinquenta minutos quando o público pensava que aplaudia mais um tema e os músicos subtilmente tinham saído de palco. Poucos acreditaram que seria o término. Alguns segundos de palmas e assobios e o encore previsível confirmou-se. O músico anunciou que a noite era especial e iria apresentar um tema novo. A plateia voltou a fechar os olhos. Inesperadamente o concerto chegava mesmo ao fim sem que tivesse decorrido uma hora. A noite onírica foi interrompida bruscamente e isso não se faz. Ficou um sabor agridoce. Foi óptimo enquanto durou.

Na primeira parte, o músico português BlacKoyote apresentou o último trabalho, “Quiet Ensemble”. O público encarou o concerto de Blac Koyote com a mesma seriedade de Forest Swords. O artista sentiu que estava perante uma plateia que conhecia a sua música e isso valorizou o espectáculo. Blac Koyote cumpriu eficazmente a dupla função de projectar a electrónica ténue e minimalista e as imagens que acompanhavam a divagação sonora.