Para 5ª-feira do primeiro fim-de-semana, ainda sem o palco da praia e tendencialmente com muito menos gente, o FMM contou com um público bastante numeroso para a ocasião. A justificá-lo estará a inteligência da programação do festival, colocando a abrir um dos dias mais fortes em termos de cartaz.

Se o final de tarde, antes da nossa chegada, ficou marcado pela guitarra portuguesa de Custódio Castelo, a noite teve o Mali como grande destaque. Contudo, pertenceu à proposta mais discreta do país africano o grande trunfo do dia.

Três anos depois de terem encantado Tondela, Bassekou Kouyaté & Ngnoni Ba voltaram em grande ao FMM. Com a cabaça como eixo comum dos instrumentos de palco, a abertura nocturna do castelo fez-se de forma muito mais festiva do que habitualmente (uma troca no alinhamento não teria ficado mal). Os belíssimos solos deste cordofone africano (ngoni) chegaram de forma improvável até à lambada (?!) e, juntando as progressões rítmicas da percussão, transmitiram a devida energia para a plateia. Entre saudações à paz no Mali, foi um espectáculo profundamente familiar, não só porque em palco estão também a mulher de Bassekou e alguns dos seus filhos, mas também pela profunda empatia criada com o público. No fundo, tudo o que não aconteceu no concerto mais aguardado da noite.

Demasiados concertos? Cansaço acumulado? Piloto automático?… Certo é que o concerto de Amadou & Mariam foi uma relativa desilusão. Dir-se-ia que a guitarra de Amadou, o baixo quente ou a apurada ocidentalização dos teclados seriam suficientes para incendiar os corpos, mas isso não sucedeu. Pareceu tudo muito forçado, numa proposta world já demasiado artificial e com apelos à dança muito programados. Houve, tal como em Abril no Coliseu de Lisboa, passagens por Folila, pelo inevitável e gloriosoDimanche à Bamako e o inevitável Sabali (experiência com o cunho de Damon Albarn). Comparando os dois momentos, parece que tudo foi mais insosso, o que é particularmente estranho quando o Castelo de Sines seria um local muito mais apropriado para a festa proporcionada pela dupla maliana. Como tal, não adianta usar como desculpa a pouca mobilidade dos dois músicos. Basta lembrar-nos do estrondoso concerto que os Staff Benda Bilili deram há três anos para que esse facto não possa servir de justificação.

Ensanduichado entre os dois nomes do Mali, houve a mestiçagem do projecto americano Hazmat Modine, com reggae, jazz swingado e muito, muito blues. Com banjo e sopros diversos, é uma espécie de versão suave e gingona de alguns dos estilos abordados, com a particularidade de termos música negra totalmente interpretada por malta caucasiana. Nesta banda nova-iorquina, destaque para a mística do líder Wade Schumann, com o seu sotaque sulista, a imponente harmónica e um vozeirão rouco brutal.

O carisma que abunda em Shumann falta em Arthur Pessoa, líder dos brasileiros Cabruêra. A ideia de reinvenção da música nordestina não é nada nova e, pensando nos exemplos de Siba e Silvério Pessoa, tem um passado de sucesso no FMM. Esta é a proposta mais adulterada, porque não tem a sanfona (o acordeão do Nordeste), nem outros instrumentos mais tradicionais, com os elementos habituais de uma banda rock a serem apenas acompanhados ocasionalmente por melódica ou ferrinhos.  Mas não resultou, não só porque falta algum talento aglutinador a Pessoa (essencial neste registo), como o som é demasiado cru para um final de noite festivaleiro.