O festival com o cartaz mais internacionalizado de que há conhecimento em Portugal chegou ao fim. Por Sines passou não só a música, mas também o cinema, a literatura e experiências oriundas dos quatro cantos do mundo (depois de um festival como este, custa acreditar que os cantos são só quatro).

Para o final de um alinhamento de sete dias de música, que este ano foi dividido por dois fins-de-semana, estava reservado o reggae da dupla Sly & Robbie com apoio do cantor Junior Reid. Mas quem havia de pisar o palco em último seriam os reinventores da música de Gnawa, provenientes da África do Norte, osUniversity of Gnawa.

4º dia – 27 de Julho, quarta-feira

Quem visitou Sines por altura do FMM nos anos anteriores e se aproximou do Castelo da cidade durante a tarde do primeiro dia desta segunda parte do Festival, ficou com medo de se ter enganado nasdatas. É que as ruas não estavam cheias, não se ouvia música tocada na rua do Centro Cultural, nem havia filas nos cafés e supermercados, como nos anos antecedentes. Cenário que só havia de mudar no fim-de-semana.

Desde os anos 1980 que a multi-instrumentista Manou Gallo faz do palco o seu local de trabalho. Com 12 anos estreava-se nas ribaltas do Mali, Burkina Faso, Togo e por aí a diante. Agora, com 38 anos, estreia o seu mais recente álbum em território português.

Manou Gallo, a primeira das artistas da noite, até começou a tocar para um Castelo meio despido de público, o que não a impediu – a ela e à sua Woman Band – de prosseguir com a sua actuação e tirar o maior partido dela. Acompanhada nas melodias pela também vocalista principal Lene Noorgaad Christensen, procurou fazer uma ligação entre a música que traz consigo na voz da Costa do Marfim e a música ocidentalizada, a partir da voz deChristensen. Vínculo esse que também se percebeu através da incorporação do violoncelo de Anja Naucler, que tanto brotou sons de inspiração funk, como R&B ou reagge.

Após um encore em que Amy Winehouse teve direito a um brinde, os Mama Rosin Cyril Yeterian, Robin Girod e Xavier Bray – subiram ao palco e trouxeram consigo a jovialidade de que são portadores.

O trio suíço viu a sua principal influência na música originária na comunidade crioula do Louisiana, evocando o género Zydeco, fusão da música tradicional francesa com a folk americana do século XIX. Com umas pinceladas de energia rock, o idioma francófono cantou as músicas dos Mama Rosin.

Louisiana Sun, álbum editado este ano, foi o trabalho que esteve por trás da prestação da banda de influência franco-americana. O acordeão de Cyril foi a principal forma de denunciar a estética que os Mama Rosin foram buscar ao estado do Louisiana, fazendo ouvir uma série de acordes mexidos, coloridos e tradicionais. Juntando à tradição dosantepassados, umas manchas de música country faziam-se ouvir entre a guitarra e a bateria que facilmente deslizavam para um registo impregnado de rock.  Não é complicado encontrar em Mama Rosin semelhanças com os texanos The Strange Boys, que também têm parte da sua ascendência na sonoridade country e no garage rock.

A cereja no topo deste bolo foi Blitz The Ambassador e o seu hip-hop big band. O enérgico trio de sopros (trompete, saxofone e trombone), que acompanhou na fila da frente o rapper norte-americano nascido no Gana, evocou, com muito estilo (todos vestidos a rigor), desde os clássicos do hip-hop de Nova Iorque, às big bands de Jazz. Passando pelo highlife, fazendo até uma cover de Ebo Taylor, e o afrobeat. O hip-hop de Blitz the Ambassadornão deve tanto à sua figura carismática como deve à grandeza dos seus músicos e à riqueza instrumental que vimos encerrar a noite – donos de uma organização, noção de ritmo e sintonia excelsas.

Quando os Mikado Lab começaram a tocar na praia a sua fusão de jazz, rock e música electrónica já era plena madrugada. Porém, o contágio da energia do concerto anterior facilitou a descida até à Av. Vasco da Gama, junto à praia, para assistir ao concerto do trio de Marco Franco, que tocou para um público que facilmente deixou esmoreceu o entusiasmo para se limitar à contemplação.

5º dia – 28 de Julho, quinta-feira

O sol já ia baixo quando algumas centenas de pessoas assistiam, em silêncio e sentadas no chão, coberto pelas ervas aromáticas que evitam que o pó do chão do Castelo se levante, ao concerto deShunsuke Kimura e Etsuro Ono. Tocadores de shamisen, uma guitarra tradicional japonesa de três cordas, trouxeram a memória do Tsugaru-jamisen, estética que se proliferou durante os invernos gélidos no extremo norte da ilha Honshū, principalmente em meados do século XIX. A cadência dos ritmos estalava nas paredes do castelo, que devolvia o som ao silêncio da assistência concentrada em ouvir, transformando o espectáculo numa experiência sensorial de dimensão quase cerimonial. Os simpáticos japoneses até retribuíram tal respeito com uma música nova, composta no dia anterior, intitulada Love For Sines.

Se na maioria dos Festivais de Verão os concertos têm um formato diferente, com uma duração reduzida para se poderem encaixar mais bandas nos seus alinhamentos, em Sines isso não acontece. Raramente se deseja até que o contexto para ver aquelas bandas tivesse sido outro. Mas, por vezes, há um preço a pagar por isto. Quem o paga é o corpo, que não aguenta já as dores de assistir de pé a espectáculos literalmente sentados.

O que acontece é que, à noite, o Castelo já estava mais cheio e não dava para assistir sentado ao concerto dos gregos Apsilies, nossos companheiros na crise, cujo nome até significa “Sem Dinheiro”. Mensageiros de uma lamúria grega de tradição urbana – a rebetika – e herança oriental, prometiam um concerto incendiário, felicitando logo de início esta (não tão) feliz coincidência que é a crise, que fez com que a banda estivesse na moda e assim proporcionasse a sua estreia em Sines. Mas não chegaram a levantar-se das suas cadeiras, fazendo avivar as tais dores no corpo que ninguém queria, na verdade, sentir, perante a beleza do seu repertório.

Também sentado, mas desta vez no chão de um estrado colocado no palco, Vishwa Mohan Bhatt manejou a sua Mohan Veena, instrumento de cordas, do género slide guitar, utilizado na música clássica indiana actual, que se toca com um gargalo. Acompanhado pela The Divana Ensemble, colectivo de músicos do Rajastão. O sorridente comandante Vishwa tocou, mas quem encantou e afastou o fantasma das dores no corpo foram os solos de Kartâl de Gazi Khan Barna, que transpirava as suas percussões.

Já durante o concerto de Nomfusi, os seis músicos passearam pelo recinto, distribuindo abraços, como se tivessem ficado amigos de toda a gente com quem partilharam aquela viagem à Índia

Quem ouviu a sul-africana Nomfusi teve, num primeiro impacto, dificuldade em acreditar que tal voz era mesmo daquela menina de metro e meio que saltitava alegremente pelo palco. Dotada de um vozeirão poderoso e tão agudo, que ainda aqui ecoa nos ouvidos, a jovem que venceu com um sorriso contagiante a pobreza e uma história de vida complicada, procura incorporar uma mistura deTina Turner com Miriam Makeba. A influência norte-americana é tal que às vezes faz lembrar os clássicos da Motown e a homenagem à sua inspiração sul-africana é tão mais explícita que o concerto acabou a fazer toda a gente dançar ao som do clássicoPata-Pata, que já na noite anterior tinha sido evocado por Blitz, The Ambassador – uma espécie de trunfo indispensável para quem quer animar as hostes.

A banda The Lucky Charms acompanhou Nomfusi na apresentação do seu disco de estreia, Kwazibani, e houve ainda tempo para experimentar alguns temas novos, como Burning.

Para a madrugada de Quinta-Feira, estava reservado mais Jazz, desta vez com o Tuba Project de Lucian Ban e Alex Harding, com a participação especial de Bob Stuart, um veterano da tuba. Um concerto que merecia ter acontecido mais cedo.

6º dia – 29 de Julho, sexta-feira

A noite de sexta-feira começou com a apresentação de Ayarkhaan, trio feminino vindo da república de Iacútia, na Sibéria. Vestidas a rigor, em tons de branco e com vários adereços, protagonizaram o único momento durante o festival em que a voz foi o instrumento principal. O khomus (ou harpa judaica) proveniente da república russa de Sakha, espécie de berimbau de boca, também fez parte da música que retratou os sons da natureza – do sopro do vento ao timbre das gaivotas. Este trio feminino é dono de uma técnica gutural admirável, em que uma instrumentista sozinha consegue criar um som polifónico, utilizando unicamente as suas cordas vocais. Influenciadas pelo throat singing proveniente de localidades na Ásia Central, principalmente de Tuva, o trio feminino relembra a vocalista que mais contribuiu para que o tuvan throat singing saísse além fronteiras, Sainkho Namtchylak. Também impressionante era a sua linguagem corporal: de berimbau ao peito, o trio imitava aves e fazia outros gestos que nos contavam as histórias que as palavras perdiam, sem tradução; de berimbau na boca, das suas mãos irrompiam movimentos de uma precisão ritualista, de genuína argúcia.

A noitada seguiu de modo mais roqueiro e convencional – se bem que, depois disto, qualquer coisa o seria. Vindo da França, o projecto Before Bach proporcionou uma espécie de viagem ao deserto, conduzida pelo seguinte trio: o alaúde elétrico do argelinoMehdi Haddab, que em 2009 visitou o FMM com os seus Speed Caravan, convidado especial deste concerto; a voz do francês Erik Marchand, um veterano com ar de druida e voz inspirada no Gwertz bretão; e as fantásticas guitarras de Rodolphe Burger, que nos conduziam por uma caminhada de contornos difíceis, como quem vai enterrando os pés na areia quente dum deserto norte-americano, mas que se tornava mais suportável com a chegada, aqui e ali, de uns ventos de blues rock.

O concerto de encerramento no Castelo foi o dos Dissidenten. Apresentados como veteranos da abertura da música ocidental às músicas do mundo, graças à sua mistura de rock com sons do médio oriente, a banda deu um concerto competente, como qualquer banda com o seu estatuto daria, sem precisar sair da sua zona de conforto. Da formação original, resistem apenas dois membros – o baterista Marlon Klein e o baixista Uve Müllrich – sendo que o alinhamento, no qual não pode faltar a incontornávelFata Morgana, foi conduzido graciosamente pela voz da sensualMennana Ennaoui e o carismático Noujoum Ouazza, dupla de músicos marroquinos que integram o grupo.

A escolha para encerrar a noite na praia, por volta das 3h, recaiu sobre O Experimentar Na M’Incomoda. O som do projecto, que abarcou em mãos a tarefa de reinventar a música tradicional dos Açores, não é dos sons mais fáceis de se apreender, apesar do mérito em conjugar a crueza das vozes e letras do repertório açoriano com uma electrónica delicada. O que continuou a não apelar muito ao público, na verdade, foram as escolhas da organização para a madrugada. Só no Sábado os Kumpania Algazarra encheriam a Avenida Vasco da Gama de gente a dançar.

7º dia – 30 de Julho, sábado

Apenas no sábado é que Sines encheu mesmo “à moda antiga”. No Castelo, felizmente, respirava-se melhor que no ano anterior, em que as muralhas parecia que iam rebentar pelas costuras – e não há como não felicitar a organização por ter planeado os dias de forma a evitar que tal sucedesse novamente.

A festa começou logo a abrir com Nathalie Natiembé, francêsa da Ílha de Reunião. À noite, quando Mário Lúcio entrou em palco, vestido de branco, transbordando paz, já muito se tinha dançado e pulado por ali. O Sr. Ministro da cultura de Cabo Verde, membro dos Simentera, que em 2003 já estiveram em Sines, veio apresentar o seu mais recente trabalho a solo, Kreol. Cantou – na língua que desde logo frisou como oficial para as suas músicas, o crioulo – a banda sonora para o seu desejo de final de concerto: que “façam filhos bonitos”. Isto sem maldade, claro. Lúcio é uma figura carinhosa e, com Tabankamor, já nos tinha contado como “grande, nesse mundo, só os pequenitos e o amor”.

Não se sabe se foi o músico que trouxe consigo ventos da sua terra, mas a verdade é que a noite esteve mais quente do que nos dias anteriores – nem foi preciso dançar para o ambiente aquecer. Calor esse que chegou a arrepiar, ainda que pareça um contra-senso, quando se entoou em coro a Sodade, popularizada pela “diva dos pés descalços”, Cesária Évora.

E em poucos minutos mudámo-nos de Cabo Verde para a Jamaica. Depois de Lee “Scratch” Perry, em 2009, e do toasting de U-Roy em 2010, já é tradição ter as good vibes do reggae a encerrar a noite. Desta vez foi a dupla Sly & Robbie, acompanhada pelo entertainer de serviço, Junior Reid, entre outros convidados, a fazer ouvir versões de clássicos do dub e do reagge, iniciando sua actuação com a Rock Fort Shock, original do toaster Prince Francis.

Difícil foi compreender como é que a dupla jamaicana com o repertório mais prolífico dedicou praticamente um concerto inteiro a versões de outros músicos, mal deixando espaço para as suas criações. Contudo, o público correspondeu da melhor maneira, principalmente perante um dos clássicos, Rivers of Babylon, original dos Melodians, uma das músicas em que as pessoas mais se movimentaram e vibraram. A interacção entre os convidados deSly & Robbie e público também se fez sentir: os pedidos para a plateia trautear uns quantos sons eram constantes, tal como os pedidos para pôr as mãos no ar e balançá-las de acordo com o ritmo. One Blood, música do vocalista que tem acompanhado a dupla jamaicana nesta digressão, Junior Reid, foi o tema que finalizou o concerto da mediática dupla Sly Drumbar & Robbie Basspeare.

A pedido do agenciamento do grupo, o alinhamento seria alterado, e, quem tocou em último, com direito à companhia do fogo-de-artifício foi, afinal, Aziz Sahmaoui e o seu novo projecto:University of Gnawa.

«With “University Of Gnawa”, I wanted to mix and gather Senegal and Morocco», referiu A. Sahmaoui sobre o seu primeiro álbum, lançado este ano, que veio apresentar pela primeira vez em Portugal, no Castelo de Sines. Gnawa é um grupo étnico que, com o passar dos séculos, tornou-se parte da comunidade Sufi de Marrocos. A música Gnawa, com as suas respectivas cores e danças maioritariamente acrobáticas, é uma espécie de celebração religiosa da vida. Sahmaoui importou até ao palco do FMM os sons do Magrebe, maioritariamente conduzidos pela percussão e pelo canto, instrumentos principais do género proveniente da África do Norte. De acordo com a estética de Gnawa, as construções rítmicas são sempre na mesma linha, com poucas variações, e perduram durante um tempo extenso. São estas características que proporcionaram momentos de introspecção aliados a instantes de júbilo, quando os foguetes que todos os anos encerram o FMM Sines começaram a ser lançados, proporcionando um misto de cores rituais ao som da University Of Gnawa – uma apoteose completa para encerrar as noites de concertos em 2011 no Castelo de Vasco da Gama.