Com o Vinyl, Lisboa vê nascer mais um excelente espaço para este tipo de actuações de vertente mais acústica. Suportado, então, pela atmosfera perfeita da sala, Rui Carvalho soube aproveitar o formato e o público correspondeu com envoltura. Se há dias se escrevia que este seria o espaço ideal para um concerto e degusto de um copo de vinho, Filho da Mãe conseguiu fazer com que essa degustação fosse ainda mais espontânea.

Pasteur disse, um dia, que “existe mais filosofia numa garrafa de vinho [do] que em todos os livros”. Concordando-se ou não, a analogia pode ser feita para os acordes que Filho da Mãepartilhou com todos. Existe muita história, pensamento e sensações naquele tocar que, se não fosse expresso em música, poderia, certamente, sê-lo em livro: é que existe nas suas mãos uma componente que acaba por agraciar as suas actuações.

Pouco fala e nem o precisa de fazer. A guitarra fala por ele e é através dela que se expressa. É um dedilhar que se traduz em imaginários, em emoções e em muitas outras formas individuais e particulares de expressão. Corda acima, corda abaixo, com menor ou maior intensidade, representa na perfeição muita da nostalgia e melancolia tão características do nosso povo, transformando-se num modo de tocar tão belo e intensamente impregnado de portuguesismo.

Durante a actuação, houve ainda tempo para a estreia de uma nova faixa, Vaca Velha, e para as habituais faixas do magnífico trabalho Palácio. Sozinho em palco, íntimo e pessoal, foram muitas as vezes que, de olhos fechados e sorriso estampado, Filho da Mãe corria as cordas, reportando-se, eventualmente – e através das suas músicas -, a momentos íntimos e pessoais que, naquele espaço, partilhava com todos os presentes.

Englobado na programação Vinyl sintonizado em…, o também senhor de If Lucy Fell não teve qualquer dificuldade em sintonizar os presentes que preenchiam as mesas do Vinyl e que não se incumbiram de o aplaudir calorosamente assim que se finalizou a actuação. Nessa altura, já o palácio de Filho da Mãe tinha sido apreendido por todos e a experiência de habitação já era mais colectiva do que individual.