O novo trabalho saído das mãos de Rui Carvalho, excelso senhor de bandas como If Lucy Fell, Asneira ou I Had Plans, conta estórias que todos nós, em um momento ou outro, já sentimos na pele. De cariz instrumental, só com a guitarra junto do coração,Palácio eleva-nos, faz-nos sair do corpo e transporta-nos para outras paragens.

Aqui, a guitarra acústica é explorada até ao infinito, numa busca sensorial e pessoal, como sentimos em De Prego A Prego, de pé em pé, tema nocturno e cativante. Pomada 1 retoma um cariz mais tradicional, muito típico e muito perto da guitarra portuguesa, enquanto que Helena Aquática dita uma espécie de tragédia fatalista, auxiliada por loops sucessivos e crescendos na parte final.

Quis não quis, a roçar o country numa fase muito tenra, é outro dos temas que espelha a versatilidade de um músico liberto de pressões e cheio de vontade de improvisar; improvisação essa que sobe aos céus com Encontrei os Teus Dentes, numa urgência frenética para desbravar fronteiras e barreiras.

Por seu turno, Não sei desenhar barcos – singela, bela-bela -, naquelas imagens mentais que se criam (e eu sou particularmente imaginativa), remete-nos a um dia de sol tímido, onde, ainda assim, mora o medo, um medo secundado por uma alma aberta para o futuro. Porém, Palácio é muito mais do uma questão nacional: com influências latinas, muito próprio de sonoridades mais vincadas pela world music, o LP de estreia a solo de Rui Carvalho ressalva como é vital a escola que o músico traz às costas pelo seu passado.

Os tempos vindouros estão em aberto, mas certo é que o talento e a dedicação estão lá e patentes neste disco. É que o rei do Palácioé uma crueza na abordagem (muito própria, muito identitária) e uma melancolia residente, que nos leva, inevitavelmente, a sorrir.