Depois da confiança que Rui Carvalho mostrou ao abrir as portas do seu “Palácio” e deixar-nos explorar cada recanto, não haveria outra forma de mostrar maior intimidade do que abrir (salvo seja) a sua “Cabeça” para todos os que nela quiserem entrar. Esta analogia directa com os títulos dos dois discos de Filho da Mãe pode parecer meio foleira, mas é dessa entrega e proximidade que origina uma boa parte da intensidade emocional daquilo que, de uma forma fria e matemática, não passa do vibrar de meia dúzia de cordas.

Ao vivo, a “experiência-Filho-da-Mãe” é maior do que a vida e a montanha-russa de emoções é (ainda) mais intensa. Em palco,Filho da Mãe impõe o respeito que merece e ninguém parece estar ali ao engano. Todos estão em sintonia e, ao primeiro dedilhado de “Terra Feita”, o Passos Manuel mergulha numa espécie de transe, quebrado apenas por aplausos entre temas quando a guitarra de Filho da Mãe se silencia. Ao longo daquela sessão de profunda meditação, Rui Carvalho imprimiu nas suas cordas uma panóplia de emoções humanas que, física e psicologicamente exigem muito dele próprio e do público que sente cada acorde como se fosse seu. Há suores que passam dele para nós e arrepios que certamente lhe são transmitidos através de uma qualquer ligação invisível e inexplicável que se criou entre o músico e o público.

Com inúmeras mudanças de ritmo, Filho da Mãe agarra numa melodia limpa e transforma-a numa cacofonia furiosa difícil de esquecer (“Improviso de Naperon” foi um dos mais notáveis exemplos disso). Quando, nos momentos mais intensos, sobrepõe camadas infinitas de loops, há quase tanto movimento de pés a comandar uma autêntica orquestra de pedaleiras como de dedos a arranhar as cordas da guitarra. O público, rendido, viaja através dessa tempestade sentindo cada nuance da turbulência e também da calma que a fez antever. O senso de urgência e a vontade de seguir em frente é inegável, mas há também aquela saudade nostálgica que é tão nossa – a “portugalidade” que é atirada por aí quase sem critério. Atrapalhado, já depois do interpretar a colossal “Helena Aquática” do seu primeiro disco, foi com um improviso que Rui Carvalho fechou o concerto. Não havia mais nada a dizer, claro que não, nunca foram precisas palavras ao longo do concerto. Restavam os aplausos.