Vira-se à esquerda, depois à direita, depois à esquerda, e por aí adiante. Sobe-se o bairro, claro.  Quinta-feira, perto das 22h, e o bairro está calmo. Ouvem-se palmas vindas de uma taberna (agora chique) e a fadista agradece. Gotas reluzem nos casacos, mesmo sem chuva. Subitamente um aglomerado de pessoas à porta de uma galeria. Ambiente de concerto rock à porta do coliseu nos anos 90?! Trata-se de Filho da Mãe na ZDB, que, como se previa, esgotou. E a julgar por aqueles que não conseguiram entrar prevê-se que esgotaria a noite seguinte caso houvesse dose dupla.

A ZDB, que merece o maior respeito de qualquer melómano, é um espaço privilegiado para determinados formatos onde músicos e público se sentem próximos e comunicam melhor. Filho da Mãe fica bem na ZDB e a ZDB fica bem em Filho da Mãe. Pode-se embarcar na sua sonoridade no metro, numa capela, na ZDB, no Maria Matos, na Casa da Música, e uma boa ideia era o Coliseu de Roma (sem necessidade de amplificação). Mas, quase sempre, um concerto para público sentado funciona melhor para a música que Rui Carvalho dedilha, como já ficou provado noutras ocasiões.  Uma coisa é certa: vai-se para casa de cabeça cheia.

“Cabeça”, o seu segundo álbum, tão bom ou melhor que “Palácio”, foi o motivo para o concerto. Cerca de 50min que provocaram mais introspecção que qualquer minuto de noticiário sobre a guerra na Síria. Para além de intelectualmente estimulante, a música de Filho da Mãe provoca, também, exaustão física. (Um género de poesia desportiva). Rui Carvalho não precisa de cantar, não necessita de ter uma banda para este projecto. Só ele como veio ao mundo, que é como veio à ZDB. Um ser especial, que não é humano, é uma espécie diferente. Sabe-se que fala, falou, mas para além de uma cabeça, é composto por duas mãos e uma guitarra. Sabe-se que nasceu sem cordão umbilical e que vinha com cordas.

Ver para crer é um slogan cliché que poderia ser adaptado para promover um concerto de Filho da Mãe. Um só ser a tocar ao vivo aquela música intensa, densa, carregada de emoção. Embora dispare alguns sons pré-gravados é incrível como sozinho preenche o palco e capta toda a atenção da plateia, que na primeira parte, com o trio Guido Nellie, estava um pouco alheada. Com um alinhamento similar ao disco, o concerto não se revelou brutal pelas surpresas mas sim porque não é possível menos que isso. Os temas mais oscilantes de “Cabeça”, de melodias dedilhadas com delicadeza aos espasmos furiosos, provocaram os maiores aplausos, como em “Bipolar 2”, “Mali Provisório” e “Improviso de Naperon”. Iniciou o espectáculo com “Terra Feita”, mas foi a partir de “Caminho de Pregos” (excelente guitarrada a cantar um refrão) que silenciou, como deve ser, o público. Em “Um Monge às Costas” e “Quadro Branco” partilhou finais apoteóticos.

Para o encore ficou a repetitivamente arrepiante “Helena Aquática”, do primeiro registo. O público mergulhou novamente no aquário, com vontade de ficar o resto da noite a ouvir os desabafos da guitarra Helena.