A ideia de fazer uma matiné, para nos tirar de um sofá e levar-nos até ao conforto e intimismo do Canhoto já é uma vitória — felizmente, a programação prometia, e foi coroada com uma surpresa de última hora: um desvio no trajecto de Rui “Filho da Mãe” Carvalho, que no Norte já estava e prolongou a estadia até ao primeiro andar do espaço a baixa portuense.

Antes dele, contudo, surgiu em palco a colaboração inusitada, ainda que nada improvável, de Shela, ex-PAUS e membro dosRiding Pânico, com Cláudia Guerreiro, dos Linda Martini eAsneira. Se por um lado não houve surpresas, com Shela a criar tanto textura quanto melodia, à medida do que tem feito ao longo da sua carreira, enquanto que Cláudia saiu do lugar de baixista comum, para abordar o baixo de uma forma mais inteira, menos harmónica, mas mais melódica e ambiental. Entre o processamento de efeitos, soaram imagens ao longo de cerca de meia hora. O suficiente para deixar água na boca.

Cruzes Credo digladiou-se com a difícil tarefa de anteceder ao virtuosismo de Filho da Mãe. Um peso que se revelaria injusto:João Nogueira, dos Riding Pânico, a solo encontrou uma voz própria, num diálogo constante entre as melodias ambientais e um rococó intuitivo de acordes trabalhados a tappings e loops. As suas composições encontram um lugar único, que ocupou bem a proximidade sôfrega com a audiência no sábado passado.

Filho da Mãe, que “não devia estar aqui”, acabou por se impor, humilde e descontraído nos erros da orgânica performativa, como o nome maior do fim de tarde no Canhoto. “Cabeça” à cabeça, entre loops e o disparar de melodias a velocidades punk, Rui Carvalho firmou a sua evolução enquanto guitarrista ao longo dos últimos anos. Neste pequeno showcase, estendido ao longo de 20 minutos, duvidas não restaram de que cada melodia é trabalhada no aspecto DIY da beleza, que a sucessão de acordes, rápida, não se limita à simples conjunção retalhos.  O domínio da guitarra de Filho da Mãe encontra-se no ponto de ebulição da técnica enquanto fim: será sempre o meio para o arrepio e o calafrio, provocados tanto pela entrega, como pelo cantar da guitarra.

Venham mais matinées. Fins-de-tarde de sábado são melhores longe do sofá e rodeados de boa música.