Muitas vezes as emoções fazem com que tenhamos pouca capacidade de discernimento em relação a algo que nos toca. Mesmo colocando as sensações menos controláveis de parte e apelando à razão, é impossível não ficar sensível a tudo aquilo que “Cabeça” nos consegue oferecer.

Ao esperado segunda longa-duração, Rui Carvalho consegue-nos fazer entender melhor a sua primeira proposta, “Palácio”. Aliás, apenas recuperando o passado é que conseguimos compreender em toda a plenitude o presente de Filho Da Mãe e associar a palavra magnífico a este conjunto de dez temas. Não sendo gémeos, poderia dizer-se que estamos perante o filho mais maduro e vivido do mesmo pai. De facto, as linhas perfeitas, belas e para uma visualização permanente de um palacete, surgem do indivíduo, de alguém cerebral e, “Cabeça” é esse argumento mais dramático, abrangente e racional.

Sendo proveniente da nossa nacionalidade e comovente, a tendência para dizer que estamos perante um significado português e que só nós somos capazes de entender e reconhecer, talvez estejamos a assumir com presunção que apenas por aqui se consegue discernir toda a plenitude da melancolia, da nostalgia, da tristeza, da saudade, da penumbra. Provavelmente até pode ser um defeito, mas quem mais se não nós, somos capazes de provar esses sentimentos na música? Filho Da Mãe traz-nos isso de forma incrível e, todas aquelas mãozadas nas cordas que parecem abranger toda a guitarra conferem um toque muito próprio e possivelmente, único.

Este registo é mais complexo, menos imediato, parecendo as estruturas mais intrincadas, como se escuta em “Cerca De Abelhas”. Mas também mais nobre quando se ouve os dedos a afagar as cordas em “Cabeça”, ou quando ouvimos as notáveis quebras de ritmo em “Improviso De Naperon”, ou no momento em que pressentimos a respiração em “Um Bipolar” ou “Mali Provisório”. Em todos estes momentos, o que poderia soar como faltas torna-se diferenciador, soberbo e genuíno, capaz de conferir ao disco um toque humano, personalizado e distinto. No fundo, um testemunho feito por um ser humano para que neles encontremos abrigo e compreensão, sem sermos atingidos por uma plastificada composição musical. Por fim, Filho Da Mãe mostra que muitas vezes são as imperfeições que nos levam à perfeição.