No espaço temporal de apenas uma hora e meia vimos subir ao palco do São Jorge músicos como Sérgio Godinho, JP SimõesRui Reininho, João Peste, e Noiserv. “Moradas do Silêncio” homenageou o poeta Al Berto, no passado sábado, 25 de Junho, dia em que o rock e a poesia deram as mãos.

O poeta do Medo era um homem amado por quem não sobrevive sem um livro de poemas na mesa-de-cabeceira. Marcado por uma poesia forte, límpida, por vezes revoltada, por vezes melancólica, ou simplesmente consciente desse lado mais cru da existência, Al Berto voltou à vida, percorrendo a memória de uma sala cheia, à espera de “ver” o poeta disseminado entre sons e palavras.

O concerto brilhou pela interpretação fervorosa e apaixonada dos músicos; pela quase performance “drag queen” do Rui Reininho; por um João Peste onomatopeico, e um Sérgio Godinho a cantar Doors e a Endechas a Bárbara Escrava, do Zeca Afonso – poema de Luís Vaz de Camões –, numa transição do rock para a poesia na sua génese mais pura. Noiserv, por seu lado, fez a música de fundo para a declamação dos poemas, que ficaram ao cargo do actor Miguel Borges (muito aplaudido pela sua eloquência). A escolha dos poemas ficou ao cargo do poeta e ensaísta Nuno Júdice.

A ajudar à festa, a banda de suporte, transversal às intervenções dos cantautores, contou com os quatro elementos dos Rádio MacauFlak, Filipe Valentim, Samuel Palitos e Alex Cortez. Por sua vez, a vertente plástica ficou a cargo de João Pedro Gomes, que se inspirou em imagens e fotografias do poeta manipuladas por Tó Trips.

No entanto, ao que parece, o espectáculo não agradou a uma plateia menos habituada a uma dose extra de experimentalismo em placo. Quem pensava que iria ouvir uma balada à JP Simões, o Sérgio Godinho a dar numa de trovador, ou o Reininho interpretando o Dunas numa apoteose de karaoké, enganava-se redondamente. “Isto está uma vergonha”, afirmava na plateia, numa surdina convicta, uma senhora possivelmente sexagenária.

Resta dizer que, se Al Berto (1948 – 1997) pudesse ter marcado presença no “Moradas do Silêncio” não poderia ter ficado mais radiante. Rock (que ele adorava) e a sua poesia deram as mãos. A sua memória perdura. “Corpo, que te seja leve o peso das estrelas”, escreveu o poeta.