Embora tenha sido reduzido a um único dia de festival, o “Gente Sentada” não perdeu a sua força e encheu, uma vez mais, todas as cadeiras (e mais algumas) do Cine-Teatro António Lamoso. A responsabilidade será quase toda de Patrick Watson, mas as outras propostas também não desiludiram.

Little Friend

Como já vem sendo habitual, o palco do Gente Sentada recebe bandas a dar os seus primeiros passos. Depois de Manel Cruz lá mostrar pela primeira vez o seu Foge Foge Bandido, também os The Telegram tiveram a sua estreia naquela palco. Este ano foi a vez de Little Friend, alter-ego de John Almeida. O que se ouviu foram simples canções (essencialmente acústicas) cuja melancolia parece relembrar que a primavera tarda em chegar. Essas melodias foram retiradas de We Will Destroy Each Other – disco de estreia a ser editado pela Optimus Discos lá para o final do mês. Era notável o desconforto que o trio ainda sentia em palco, mas seria injusto não referir que este foi um primeiro passo dado com convicção.

Emmy Curl

Mais à vontade nestas andanças está Emmy Curl e a sua banda. Vestida e caracterizada a rigor, Catarina Miranda veste a pele de uma personagem de conto de fadas envolta num mundo de fantasia que, em palco, é representado por um candeeiro ‘místico’ que paira sobre ela.

A actuação foi marcada por alguns problemas informáticos (muito bem dissipados com bom humor e descontracção) e percorreu-se todo o espectro de sonoridades da menina Curl. Entre o intimismo acústico e batidas melancólicas a lembrar trip-hop ou tiradas electrónicas a lembrar a estética de Bjork no seu mais recenteBiophlia, houve ainda tempo para uma humilde versão de Zeca Afonso. Não, não foi Grândola, Vila Morena, mas sim Maio, Maduro Maio que quebrou, por momentos, a magia do mundo deEmmy Curl e trouxe o auditório de volta à dura realidade dos nossos tempos. Ficou a mensagem que é bom sonhar, mas importa ter os pés bem assentes na terra.

Mélanie Pain

Mélanie Pain não se preocupou tanto com a chamada à realidade e alicerçou a sua actuação na sensualidade descomprometida. Há algo de inexplicavelmente sexy na língua francesa sussurrada por uma voz feminina meio rouca e Mlle.Pain sabe disso fazendo-se valer desse argumento para conquistar a plateia. A francesa (que já foi uma das vozes dos Nouvelle Vague) trouxe a Sta Maria da Feira uma dose de energia e sensualidade que pareciam até deslocadas num festival que se diz para gente sentada. Apesar da estranheza inicial causada pela sonoridade inesperada, a pop falsamente naif de Mélanie foi muitíssimo bem recebida e contagiou toda a, gente especialmente na festiva cover bossa-nova de Girls and Boys dos Blur que dissipou definitivamente todas as dúvidas que ainda restassem relativamente à passagem de Mélanie pelos Nouvelle Vague.

Patrick Watson

A julgar pelo número de vezes que o músico canadense tem actuado por cá, já quase que se justificava o aluguer de uma casa, mas nem isso esmorece o entusiasmo dos inúmeros fãs que fizeram questão de esgotar o Cine-Teatro António Lamoso.

À enésima passagem de Patrick Watson pelos palcos portugueses, já pouco ou nada será novidade mas a verdade é que tudo continua igualmente encantador. As risadas e boa disposição que são a imagem de marca do músico continuam charmosas e as canções acústicas em volta de um único microfone são ainda momentos verdadeiramente mágicos e deslumbrantes. Ao longo do concerto, o caos de improvisos instrumentais e crescendos intensos que superam, ao vivo, as respectivas versões de estúdio é equilibrado pela solidão e intimismo do piano de cauda. É precisamente dessa forma emotiva que, como já vem sendo habitual termina o Festival para Gente Sentada – com uma plateia rendida e a aplaudir de pé.