Outsider. Punkalhada. Matiné. Lafões. Quando as coisas nos são dispostas desta forma, não é fácil recusar o subconsciente ímpeto, que quase nos grita para irmos até ao Rossio comemorar a velha máxima: punk is not dead. E mesmo que o velhinho punk estivesse à beira do colapso, esta tarde de Maio teria sido um desfibrilhador potente. Como não era o caso foi, isso sim, uma festarola.

Parece, desde logo, uma boa ideia ver o Johnie dos Simbiose e o Rui Rocker dos Crise Total juntos, duas figuras com história na cena punk nacional. Mas os Asfixia não se limitam e eles: contam também com Marden no baixo e a feroz Inês Menezes na voz. Com um punk musicalmente tradicional, virado tematicamente para a crítica urbano-social (o FMI ficou com os ouvidos a arder), os Asfixia deram uns bons trinta minutos de concerto, apenas aqui e ali prejudicados por problemas técnicos no baixo. Mas como diria o Johnie, a meio de uma das duas interrupções, “o punk é mesmo isto”. E é também aquilo que os Asfixia produzem – e bem.

Os farenses Confront Hate estavam um pouco deslocados do cartaz. Mais virados para o groove metal, com várias passagens a fazer lembrar os suecos Meshuggah, conseguiram, ainda assim, despertar movimento em Lafões – principalmente com os temas do EP homónimo, que data de 2007. O novinho Diabolical Disguise of Madness(saiu a 15 de Abril) também não se safou mal, com Corrupted Desire a mostrar-se como prova dos nove da robustez do primeiro álbum do grupo. Foi igualmente aosConfront Hate que calhou a fava, que é como quem diz a falta de electricidade – algo que já é tradição na Casa de Lafões. A meio da música final, Psycho Act, os algarvios foram brindados com a escuridão. Acontece.

Há quem diga que eles são os Toy Dolls portugueses, mas os Acromaníacos, que já têm duas décadas de carreira, merecem mais do essa comparação com que os britânicos. Vestidos a preceito, como as fotos o demonstram, distribuíram três quartos de hora de boa disposição, mosharia e sing along. É que músicas como A Hóstia Sexy do Padre FredericoA Galinha dos Dentes de OiroHomem-Merda ouSalada de Fruta (requisitada por um membro da plateia) despoletam sempre esses mixed feelings: ora dá para rir, ora dá para ir dar um “passinho de dança”, numa roda que se tornou ainda mais viva com a A Cor do Céu, faixa que terminou um grande concerto dos Acromaníacos.

No cartaz, tínhamos representantes de Lisboa e Faro. Faltava alguém do Norte para contrabalançar. Que tal os Mr. Miyagi? Nada mau, hã? É que estes chavalos não se limitam a contrabalançar – às tantas, quando se dá por ela, a balança já está toda virada para o lado dos karatecas de Viana dos Castelo. De regresso a Lafões, casa que bem (re)conhecem, os Mr. Miyagi voltaram a estraçalhar a plateia com o seu punk hardcore a trezentos à hora, que não dá abébias para recuperar o fôlego. Non stop é lema a que eles dão primazia – e quem, como eu, os tinha visto uma semana antes no SWR Barroselas Metalfest, consegue notar a léguas como eles se dão melhor em espaços pequenos, nos quais podem espalhar a completa barafunda.
É um mistério como estes quatro mânfios ainda se mantêm tão em segredo no underground nacional. Para além de serem um caso sério musical, são também uns cool motherfuckers…  Com esta “pun” me despeço, aproveitando ainda para dizer que no próximo sábado também há Festival Outsider: PunksinatraAtentadoCarlosCrüzt e Freedoom andarão por lá.

Vê a foto-reportagem do festival aqui.