Mestre-de-cerimónias que nos guia para outra dimensão, Fennesz detém a capacidade de quase se fazer translúcido em palco. Envolto nas sombrias e melancólicas projecções de vídeo, o austríaco vai desenlaçando um chorrilho de fragores, que, aumentando de intensidade a cada segundo, engolem a atenção de quem a eles se depara.

Múltiplas são as vezes em que a nossa percepção se fragmenta, perdendo a consciência de que estamos sentados num teatro no coração de Lisboa. O noise electrónico de Fennesz altera a noção de espaço físico e o tempo, esse, também não passa incólume: alvejado pelos plácidos ruídos do músico, é difícil entender quantos minutos já foram percorridos pelo pulsar do homem de Viena.

Quem o viu em Dezembro de 2010, ali, no mesmo palco, terá agora experienciado uma actuação bem diferente. Naquela gélida noite, Fennesz fez-se acompanhar por Dafeldecker eBrandlmayr, músicos que acabaram por dar contornos distintos àquilo que seria uma actuação do austríaco a solo. Desta vez, num evento incluído no cartel do SuperStereo DEMOnstration 2012, oTeatro Maria Matos viu Fennesz chegar sozinho, munido do seu inseparável Mac, da sua guitarra, da sua interminável fileira de pedais e das restantes peças de uma parafernália capaz de multiplicar layers e contra-layers, os monumentos do white noise.

Para além disto, o austríaco teve também oportunidade de estrear mundialmente o instrumento Protótipo [432]. De forma cúbica, desenhado pelo lituano Bernardas Bagdanavicius, fez ouvir o clamor das suas 432 cordas de guitarra entrelaçadas, municiadas pelo toque de Fennesz, ora com as mãos, ora com um par de baquetas. Um quinhão com traços futuristas, exponenciando a faceta quase alienígena de um músico que mantém insaciável a sua vontade de erguer e desconstruir paisagens musicais, onde o ruído é e será peça-chave.

Coube ao português Manuel Mota a tarefa de receber aqueles que se deslocaram no serão de quinta-feira ao Teatro Maria Matos. Habituado por excelência a improvisar na guitarra, o músico nacional optou, desta vez, por dar azo à sua liberdade no piano. Durante trinta minutos, Manuel Mota foi, a lento passo, construindo um tecido sonoro capaz de fazer sentido se a ele lhe juntarmos o nosso fechar de olhos e o nosso espicaçar da imaginação. Caso contrário, se nos aprisionarmos somente àquilo que vai decorrendo em palco, acabará por soar a pouco – não sendo de estranhar, por isso, que vários tenham sido aqueles que abandonaram a sala durante a actuação do português.