O melhor de uma trilogia de Fausto Bordalo Dias a ser fechada é o facto de o desfecho chegar em forma de um novo álbum de Fausto. Finalmente, grite-se. Porque uma conversa intelectual não é suficiente para fazer jus ao génio inabalável do homem que canta sobre a diáspora lusitana desde 1982, ano em que lançou o primeiro capítulo da sua narrativa de três discos.

Ao contrário do que é habitual no cantautor, que se perde em devaneios nos discos conceptuais ou perde a muleta essencial que a estória é para a composição, Fausto passou de mansinho pela mudança para o volver ao registo conceptual. Regressou com mais um grande cancioneiro, cheio daquilo que é, realmente, ser português: uma lusofonia desenraizada de patriotismos e nacionalismos bacocos, que sabe ir buscar um aroma de francofonia clássica ao acordeão (E Viemos Nascidos do Mar), de trazer sempre aquele quente tão típico das suas composições, com o tropicalismo angolano mais evidente – ou não tivesse Faustoviajado para lá em criança –, a marcar passo para o saudosismo da (re)descoberta do continente africano soar como só o cantautor consegue proporcionar (Nesta Selva do Guinéu).

Claro que Em Busca das Montanhas Azuis não se ficou por mais uma apresentação rebuscada das mesmas canções de sempre em novos acordes. Há um som modernizado que mostra a faceta deFausto que mais comichão provoca aos seus seguidores: a de não gostar de se repetir. Assim, surgem vinte e duas novas canções, algumas das quais com o brilho de uma pop contemporânea (A Enxurrada), tão bem disfarçada com o mais típico dos nossos sons, tão bem escondidos nos muitos cantos que temos.

O grande génio de Fausto não está na sua alma de trovador, alerta e inalienável do mundo em que vive. Não está na arte de se atirar para a frente das barricadas e liderá-las, mas está no talento inegável para olhar para o mais belo e para o mais simples – sob o seu olhar, nasceram obras como Foi Por Ela; sob o seu olhar nasce um disco que nos reflecte, aos que se identifiquem como portugueses, como algo muito mais palpável do que uma selecção de futebol e uma bandeira, do que uma cantiga absurda de fado a falar de sardinha: um disco que fala na sede de procurar algo mais. Porventura, algo certeiro e a única vista musical para o oásis do nosso deserto.