Foi uma quinta-feira difícil e, no fim, apenas a sensação de sair de um concerto de Fausto Bordalo Dias serviria de consolo para uma noite que, feitas as contas, esteve aquém de um dos legados mais significativos da música portuguesa. Não que Fausto tenha falhado – não acredito em tal possibilidade, sequer –, mas com o Coliseu do Porto a meio gás, perante o cantautor notava-se não só o peso da audiência que acompanhou a sua ascensão, já com os anos a carregar caras e a aclarar cabelos, mas também o peso da ausência de uma juventude que ou passou ao lado de um grande legado, ou que sentiu na carteira o vácuo de uma austeridade absurda.

Isso não impediu, de forma alguma, que Fausto abordasse a música portuguesa com a sua sensibilidade única, atirando-se de cabeça à interpretação do mais recente álbum, Em Busca das Montanhas Azuis, que encerra a triologia iniciada em Por Este Rio Acima – talvez fosse esta a obra de que José Afonso falava num dos seus últimos concertos, quando referiu que Fausto estava a preparar algo que ficaria na história da música portuguesa. Mesmo perante uma audiência desfalcada, fez-se jus à história rezada pelo cantor maior dos tempos de Abril: o autor natural da Beira Alta continua a soar ao que por este jardim sempre se fez, mas, mais importante ainda, continua a soar de uma forma inconfundível e caracteristicamente sua.

Durante cerca de duas horas, o semblante de Fausto, mais frágil do que nos seus tempos áureos, serviu de fachada para um colosso que não parece demonstrar vontade de vergar. Continua a cantar bem, continua a tocar bem guitarra e continua a abraçar a sua música com uma envolvência megalómana que não remete à tradição bacoca e simplória. Antes pelo contrário, o exagero de percussões (com um baterista e um percussionista em palco), guitarras (chegaram a ser quatro ao mesmo tempo), teclas (dois teclistas) e tudo o que mais se possa acrescentar a um folclore que se imagina quase acústico é brilhantemente orquestrado, como sempre foi, pela mente de alguém que não vê na tradição um objectivo, mas antes um ponto de partida. Se isso é claro nos seus discos, ao vivo é uma afirmação peremptória.

Dedicado ao novo álbum duplo, este foi um concerto que acabou por não ter a mesma força e impacto que uma actuação, digamos, normal. A tensão entre público e artista seria ultrapassada apenas quando Fausto, tão inconfundivelmente confortável com a palavra e desesperado com a necessidade de esta ser trocada com a audiência, encetou o típico diálogo com o Coliseu e, claro, quando em encore se tocou Navegar, Navegar, com uma energia que finalmente contagiaria todos os presentes.

Em Busca das Montanhas Azuis, tanto em concerto quanto em estúdio, é a prova de que a ausência de Fausto se sente. O fetiche da tradição só serve se for contextualizado, se for parte do mundo e da era em que vivemos. Fausto, único, dispensa isso: o espaço que criou para si na música ainda não encontrou um tempo, nem termo de comparação. Artistas únicos fazem sempre falta.