Bastou um avião esventrado nas férreas costelas dos Alpes para que as mais palermas e néscias reflexões se levantassem. A minha favorita é a que discorre sobre o axioma confiança-medo no contexto social e que por hábito se transcreve na frase já viram,nunca sabemos em que mãos colocamos a nossa vida, seguida de dois ou três pontos de exclamação se a descobrirmos pendurada como um peúgo no Facebook.

Pois não, não sabemos, toda a pleura quotidiana desloca-se vectorialmente numa falsa ablução, uma fictícia segurança no próximo, que com eficácia poderia ser refutada se tivéssemos acesso às mais profundas neurastenias do motorista de autocarro que te leva do ponto x ao ponto y todos os dias àquela hora. Crerás tu que ele nunca pensou, quando lhe gritas num esganiço infeliz de uma caturra, lá ao fundo do corredor esborratado por uma lata de coca-cola que bolça a cada guinada de alcatrão daquela locomotiva, fabrico Alexander Dennis, agarrada ao dieselcomo um vietnamita transexual de Hồ Chí Minh viciado em castanha e sem um incisivo por complicações nas glândulas salivares, ABRA A PORTA!!! apenas porque a porcaria do botão encarnado não responde com prontidão eléctrica ao teu polegar maniento e vaidoso, em esborrachar o veículo a 80 quilómetros horários, não dá mais, contra o mural mais próximo, precisamente naquela curva em cotovelo que tu te borras só de andar lá a pé nas noites de cacimba, lançando-te contra a janela de emergência como um pepino mole que rebola e se esfrangalha pela tua kitchenette miserável de quem está a começar por baixo, logo quando terminavas a salada vegan que tantos agrada aos teus côncavos colegas de trabalho do atelier que passeiam óculos Prada como se fossem Rolex anti austeridade, que têm como tempero de eleição o cominho e que fotografam cupcakes esashimi como se eles representassem no pós-moderno capitalismo Ikea peças de joalharia únicas expostas em salas de caça comestíveis, filtradas por ecrãs de dezasseis mil cores espremidas nas cinco polegadas, fabricadas por outro vietnamita, este menor de idade, residente num barraco em Quy Nhơn, alimentado por duas malgas de arroz provenientes do delta do rio Mekong e raquítico, cada vez mais raquítico, pelas condições de trabalho lamentáveis captadas por câmara oculta numa reportagem com o selo CBS com narração grave de Charlie Rose – julgamo-lo pelo tom de voz, parece genuinamente consternado, preocupado, equacionando talvez a reforma jornalística que lhe agravaria a depressão cada vez mais óbvia aos olhos dos familiares próximos – e outra câmara, fotográfica, parece uma Nikon a esta distância, guarda em frames o teu corpo moribundo, espalmado no asfalto com os braços numa elipse nistágmica que aos olhos de um fanático poderiam muito bem representar uma missiva demoníaca do além, tal a posição do teu braço direito e do teu braço esquerdo, enfim morto, de ventre escancarado pelo impacto ampliado pela unidade de aceleração g, o sangue caminha como o leito do Níger em trote turístico pelos entrefolhos de Niamey, arrastando consigo a tímida lata de coca-cola agora vertida em pleno numa mancha de cafeína, plasma e três ou quatro cabelos loiros, os teus intestinos como macramé decorativo só para adultos, adults only, e tudo porque querias sair na próxima, e gritaste, e guinchaste, e achaste que o Universo, em toda a sua gargântua dimensão de um mamute imperturbável e indiferente, queria saber de ti, teria impreterivelmente de te abrir a porta para seguires até casa, preparando outro jantar de amigos sensaborão onde a Raquel já não vai porque acordou com as duas amígdalas turgescidas pela alergia aos fenos, ao ponto de não conseguir respirar como um mamífero que se quer normal, e o Vasco só lá ia para perguntar se já viste o trailer do “Game Of Thrones” e para dizer que está a curtir muito o “Better Call Saul”, que lhe está a superar as expectativas que nem eram assim tantas em abono da verdade porque isto dos spin-off já se sabe, já se sabe o quê Vasco, já não te posso ouvir Vasco, estou aqui esfarelado na estrada Vasco, olha para isto, os meus sapatos de camurça rasgados, um deles lá ao fundo da rua como uma lebrezinha exposta aos canos serrados de um tabagista sexagenário de bigode barrigudo amarelado pelas narinas-chaminé, o jantar tem de ficar para a semana, a foto de grupo em que todos sorrimos sem vontade como parolos vazios e vergados à supra trindade — em nome da casa, família e emprego santo – também, é que eu não posso, tenho coisas marcadas, vou-me a enterrar para a semana, mas se quiserem podem aparecer lá, estão à vontade, só que vai estar mais gente, sabem como é, como são estas coisas… já viram, nunca sabemos em que mãos colocamos a nossa vida.