Vertiginoso como um relâmpago, o tempo correu. E a entidade Corpus Christii é, hoje, representação veterana do black metal. À semelhança de qualquer outro organismo, os anos concederam-lhe maturação, discernimento e cicatrizes. Quem fala inglês, chama-lhe awareness. Talvez em português seja simplesmente estar vivoCorpus Christii, dezassete anos depois, ainda está. O novo álbum vem a caminho – outra página escrita na caligrafia de Nocturnus Horrendus, oráculo das mais negras frequências.

Chama-se “PaleMoon” e será editado, entre meados de Março e início de Abril, pela Folter Records. As gravações aconteceram em Sintra, nos GeneratorMusic Studios, pela mão de Miguel Marques. Parte do resultado orgulhosamente revelamos aqui – para vós, em exclusivo, o tema “Last Eclipse”:

Os concertos de apresentação do novo álbum estão também marcados: a 10 de Abril no RCA Club e no dia seguinte, 11, no portuense Hard Club. Não é tudo. Abaixo uma extensa e pertinente entrevista com Nocturnus Horrendus, onde conhecemos o space-time-continuum que fez nascer “PaleMoon”.

Porquê esta música? Que lugar/função ocupa no disco?

Escolhemos a “Last Eclipse” basicamente porque, de certa maneira, traz uma vertente/faceta de Corpus Christii que já foi explorada muitas vezes, mas nunca de forma tão crua como desta vez. É daquelas músicas extremamente espontâneas, que saiu logo. Representa o que o álbum é. Foi bastante fácil de compor e gravar, tem a essência mais exclusiva do álbum que é bastante fúria. Achamos que esta música é a representação fiel do álbum inteiro, apesar de ele ser bastante variado.

Tendo já passado algum tempo desde o último trabalho de Corpus Christii, sentiste alguma diferença durante a escrita do “PaleMoon” em termos do teu processo? Ou a forma como ias lidando com o que escrevias?

Gravei o “Luciferian Frequencies” há três anos, se não estou em erro. E, ainda antes de o fazer, já tinha ideias de criar um álbum como o “PaleMoon” – tanto que o nome já vem de há onze anos para aí. É um nome que queria dar há muito. Até em tempos tive ideia de formar um projecto com esse nome, mas mais tarde achei que deveria ser um álbum de Corpus Christii mais cru e directo. A forma de compor foi como sempre: pego na guitarra e vou gravando, e o que sair é o que fica basicamente. No processo de gravação, mudámos algumas coisas, mas muito pouco. Usámos tudo, essencialmente. A questão é que este álbum está dividido em duas partes: quatro temas que gravei/fiz pré-produção para aí há dois anos e os outros foram todos feitos pouco tempo antes de entrar em estúdio. Um deles foi feito mesmo no estúdio: desconstruímos um tema inteiro porque não estava a gostar, não estava satisfeito, e construímo-lo de novo. Tanto que a primeira fase e a segunda fase são bastante compatíveis, segui exactamente a mesma linha a fazer as músicas. Não noto a diferença de terem passado dois anos. A minha forma de fazer as coisas é sempre espontânea, natural e bastante rápida. A minha única frustração é como posso ter demorado tanto tempo a fazer um novo álbum.

© Pedro Roque

Tendo Corpus Christii uma carreira já bastante vasta, qual é a motivação para continuares a escrever para a banda e dispensar a energia necessária para o processo de escrita, gravação, promoção, etc.?

É simples: a minha devoção para com o black metal e Satanás, nada mais. Em tempos, depois do digamos sucesso  que foram o “Tormented Belief” e o “The Torment Continues”, onde a banda deu um salto bastante grande e começou a tocar mais lá fora, havia sempre aquela vontade de nos superarmos e fazermos algo melhor para seguir esta rotina de sermos chamados a tocar ao vivo e arranjar mais datas. Isto sem reflectir na música, claro a música vai ser sempre sincera. Havia sempre aquela pressão na tua cabeça que gostarias que as coisas corressem bem e que fosses, digamos, aceite. Mas nunca fiz uma música a pensar que tinha de ser mais soft ou comercial. Nunca tive de me preocupar com tal coisa, sempre fiz aquilo que queria. Com o decorrer dos anos, sinceramente, comecei a cagar para isto tudo. Já deixou de haver pressão e este álbum demostra bem isso. Comecei já a deixar de a sentir no “Luciferian Frequencies” – que foi um álbum bastante difícil, não é fácil de digerir, eu adoro o álbum e ainda gosto de o tocar ao vivo – mas havia ainda alguma pequena pressão, talvez. No “PaleMoon” há zero. Não estou à espera de nada e estou-me literalmente a cagar. Não me interessa nada, como vai ou não correr. Tanto que grande parte da grotesca desmotivação que tive passou em parte pela Candlelight, que de certa maneira me matou um pouco e fez com que perdesse um bocado a esperança na indústria musical. Assim que consegui acabar o contrato com eles, segui em frente e estou a fazer basicamente aquilo que eu gosto.

© Pedro Roque

Houve alguma diferença em termos de contribuição dos membros de sessão?

Neste álbum, nos primeiros quatro temas da pré-produção feita para aí há dois anos, o Angel-0 teve um papel de segurar-me a mão para basicamente eu estar a gravar as cenas da pré-produção. Foi uma parte frágil da minha vida e custava-me a meter as coisas cá fora, e ele deu uma ajuda enorme para isso ser possível. Houve alguns toques dele na música de certeza absoluta. Não me recordo ao certo como foi, eu estava numa fase completamente passado dos cornos, mas sei que ele teve uma mão. Agora, nesta fase a compor a outra parte do álbum, J-Goatteve também uma mão, é claro. Não tanto em dar riffs, mas do género “que tal antes fazer assim ou assado”. E é crucial para mim porque sinceramente já estava um bocado cansado de ser eu sempre a fazer tudo, tive a ajuda deles para isso. Mesmo o GR na bateria – houve algumas partes em que ele teve a liberdade de as fazer à maneira dele. É porreiro porque assim o disco teve 5% ou 10% que não são meus, foram de outras pessoas que já estão envolvidas na banda. O Angel-0 e o J-Goat já estão na banda há algum tempo, e foi porreiro ter a participação deles. É bastante importante para mim… [pausa] Não foi fácil ceder a mão, não foi nada, mas agradeço imenso no final.

© Pedro Roque

Como é que olhas para o black metal hoje em dia?

Black metal hoje em dia… É fácil e é difícil ao mesmo tempo, porque há tanta boa banda e tanto bom álbum. O undergroundainda está forte e as bandas antigas continuam a lançar boas coisas. O problema disto tudo é que há muitas pessoas a dizer que as coisas são diferentes e já não são como antes… Pois não, já não temos dezoito anos. Hoje em dia temos encargos, profissões e responsabilidades, antes éramos putos punks que não tínhamos de nos preocupar com a vida. Hoje temos, e é normal que as coisas estejam diferentes. Já não as levamos da mesma maneira. Mas no final do dia, quando oiço black metal antigo ou novo, eu sinto as coisas precisamente da mesma maneira. Às vezes, até com mais claridade, visto que agora estou mais lúcido perante a vida do que quando era puto. Na altura era mais um sentimento, não analisava tanto ao pormenor o que o black metal representa. Isto é uma parte.

© Pedro Roque

Agora a outra, pronto, as modas… o post-black e o pseudo black, as capas cor-de-rosa, cabelinho à juventude hitleriana… São coisas que me perturbam bastante. Alguns casos são bons, outros não. Mas para mim o black metal é Satanás, corpse paint e sujidade. E essa nova vertente não consigo entender porque não faz parte da minha escola, talvez mais por aí. E quando critico o pessoal mais novo e dizem “mas isso é estúpido, não sei quê…”, critico porque já estou nisto há mais de vinte anos, então tenho todo o direito de dizer que não é assim. Eu, e uma mão cheia de tantos outros, temos o direito a dizer que não porque a merda que sai agora é levada como uma paródia e está a gozar com todo o trabalho que tivemos em meter o black metal onde está agora. Que não foi fácil. Agora, é tudo de mão beijada, e essa gente não tem a mínima ideia como eram as coisas: o pessoal do black metal ser cuspido por toda a gente, fosse do punk, como também da malta do metal. O pessoal do metal odiava black metal, não havia unidade nenhuma. Quando dizem que somos elitistas… Nós não queríamos ser, fomos obrigados a ser porque toda a gente nos cuspia, e isso ainda acontece. Hoje em dia, uma banda black metal quer tocar num sítio qualquer e não consegue. Mas uma banda hipster black metal toda bonitinha e fashion já consegue isso tudo. Expliquem lá isso? Talvez a música deles seja melhor… Eu não acho. Acho que há igualmente boa, mas falta a essência toda do que é o black metal: Satanás. Mais nada!

© Pedro Roque