Carla Bozulich está de volta, e não vem com as melhores intenções, por muito boas que elas realmente sejam. Felizmente, o resultado da sua malícia é maravilhoso. E assombraso, carnal e perturbador. Tão visceral, quase pornográfico, com a carna tona a olho nu, que consegue, no fim, ser sensual.

O segredo do corpo lânguido e bem torneado dos Evangelista não reside, simplesmente, na voz recortada, rouca da cantora norte-americana, que se despe perante nós com as letras e puxa pelo seu lado mais bestial neste In Animal Tongue. Há silêncio, a faceta lenta e cuidadosa do disco, que se revolve nas melodias surdas, simples, mas ruidosas, a que a banda sempre nos habituou, e bem. Tudo isto grita primitivismo, uma opção inteligentemente defendida pelas estórias sanguinárias, traumatizantes e negras de Bozulich, onde, no fim, o mal se encontra na religião e no sacrifício: “in animal tongue (…) no church was raised”.

Todo o álbum, com a sua aura simples e afastada de todos os preconceitos, a que ajuda a colocação de cada instrumento, nenhum com uma presença mais intensa que a sombra, quer seja na utilização esporádica , escolhida a dedo,  de um violoncelo (Black Jesus), quer seja na presença constante , mas absurdamente baixa, da guitarra na faixa homónima, que, tocada a luvas de lã, emana uma negritude assustadora, até para os maiores fãs do drone.

Os Evangelista fizeram um álbum inteligente e intenso sem nunca o tornarem óbvio na forma como o interpretaram. A percepção de todo o disco não é fácil, e mesmo não sendo o caminho mais claro para uma banda do género, tendo em conta o seu percurso, era, realmente, o único possível. Só assim se podia subir a parada para o degrau do brilhantismo. Bozulich e companhia conseguiram subir o desnível e isso tem de ser reconhecido. Já chega de achar os Evangelista menos iluminados do que aquilo que assumem ser.