O título é sugestivo e Night Gallery faz, efectivamente, jus a essa denominação. Durante cerca de 40 minutos, a colaboração entre Cameron Stallones e os senhores do psicadélico de Portland, os Eternal Tapestry, torna-se numa abrasiva imensidão de sensações nocturnas, como se estivéssemos sob o efeito de psicotrópicos.

Na verdade, é disso que vive a música destes dois projectos aqui unidos: de um outerspace requintado, cujos tons mais experimentais e psicadélicos (filhos pródigos da vaga de San Francisco) não vêm acrescentar em muito ao que já conhecíamos dos trabalhos anteriores em nome próprio, destes ou de outros nomes do mesmo género, como Jackie O-Motherfucker ou Earthless.

Ainda assim, importa, no entanto, sublinhar o cariz especial deste disco: Night Gallery resultou de uma jam gravada na Universidade do Texas, aquando do Festival South By Southwest, no ano transacto, e foi buscar nome a um programa da NBC dos anos 70. Uma escolha que não nos parece inocente, quando, no meio da experimentação que caracteriza esta jam (e os dois projectos, de resto), encontramos pormenores revivalistas nos teclados e na ambiência e que vão beber ao eterno legado dos The Doors e dos Black Sabbath.

Dividido em quatro actos (I, II, III e IV), Night Gallery é um trabalho coeso e de linha contínua, que não nos aborrece e que nos deixa excitados. Para isso, contribuem as pedradas dos solos de guitarra, logo a abrir, com mãos calejadas de fuzz e teclados típicos de Sun Araw. Bem pensado, o disco conta-nos uma história – cujo total enredo fica a cargo do ouvinte – com príncipio, meio e fim. Ou seja, é como se, no fundo, não se tratassem de quatro actos, mas sim de uma única passagem, onde a bateria de Jed Bindeman é fulcral para criar a ideia de um crescendo.

Há, igualmente, uma vida própria (e identitária) para cada agente envolvido neste split – em Night Gallery I emerge uma parafernália de camadas de sons, bem ao estilo de Stallones e dos seus teclados, ao passo que Night Gallery IV dá um maior relevo ao baixo cheio de groove de Yoni Kifle, que canta, completamente charrado, o ritmo do capítulo final da aventura.

De riffaria em riffaria, sem nunca se tornar demasiado pesado ou repetitivo, Night Gallery é um trabalho com alma e muito flow, em que se respeita o espaço de cada banda, aqui fundido, quase sexualmente, num só.