Foi na ZDB, numa sexta-feira chuvosa. Cinco americanos, duas guitarras, uma bateria, um baixo e um saxofone sobem ao palco e começam devagar, de forma quase gentil. Alguém murmura qualquer coisa ao microfone e não se percebe muito mais para além de “too much hashish”. Pela minha experiência, referir abusos de substâncias ao invés de um obrigado manhoso no início de um concerto é um bom indicador para o que aí vem.

Há quem diga que o abuso de substâncias faz ver coisas e posso jurar a pés juntos que na sexta-feira presenciei e senti coisas que não posso explicar. Esclareça-se que a minha substância de eleição são os decibéis altos e não a mescalina, mas aquelas distorções, delays e reverbs fizeram-me passar por algo semelhante a uma viagem xamânica, com cores, dimensões paralelas e isso tudo. E sem enjoos.

Em Vibrations New Dawn, por exemplo, os devaneios espaciais e prolongados deram inevitavelmente espaço à viagem, às ditas aparições divinatórias e às ondas de som que se sentiam fisicamente. Tudo o que basta é fechar os olhos e deixarmo-nos ir. Sentimo-nos em Portland, sentimo-nos no deserto, ouvimos as influências em doses iguais de Comets on Fire e Hawkwind, mas notamos ainda mais a presença do haxixe, do peiote e da mescalina na composição do quinteto.

O que é preciso dizer é que de certa forma a composição devaneada parece moldar o tempo, sem deixar o tempo moldá-la a ela. E é por isso que resulta tão bem.

A indução começa – onde mais? – nos pedais; muitos pedais que dão a ideia de som circular, sempre suportado pelo baixo. EmAncient Echoes, por exemplo, a viagem é catalisada como que por uma tempestade de areia, toda ela conjurada por riffs assertivos se tratasse. E tudo culmina, neste e em todos os temas, numa erupção de solos espaciais em forma de convite para outros mundos. As cordas tocadas em fúria quase parecem uma evocação de espíritos do deserto, um ritual que deve ser cumprido todas as noites para que a vida corra melhor.

Tudo isto ajudava a esquecer que lá fora o mês de novembro castigava a humanidade com uma chuvada interminável. Dentro da ZDB quase se podia pisar a areia e, graças às linhas miásmicas do saxofone, sentir a brisa quente na cara. Tão quente que, quase sem nos apercebermos, chegámos ao fim da viagem. Não houve solavancos – apesar de pelo menos uma corda se ter partido – mas antes a ideia de estarmos mais completos de certa forma. Sentimo-nos satisfeitos pela ideia de termos ido e voltado.

O certo é que fica a ideia de que há concertos que deviam ter estatuto de serviço público. Pela forma como são capazes de educar orelhas moucas num par de segundos, estão a ver a ideia? O concerto de Eternal Tapestry mesmo dependendo de um alinhamento cósmico perfeito, encaixa direitinho nesta premissa.

Ainda antes da viagem, Pedro Gomes e Gabriel Ferrandini fizeram questão de violentar os tímpanos – e a paciência – de todos os que se deslocaram ao aquário naquela noite. Em duas peças assentes em ruído, construídas por uma guitarra destrutiva e uma bateria destruída, durante meia hora o máximo que a dupla arrancou foi um pensamento: experimental não é desculpa para tudo. Embora se denotassem boas ideias e principalmente bons apontamentos de Gabriel Ferrandini atrás da bateria, não parece ter havido um objectivo naquela noite.