Certamente um dos projectos que mais tem merecido justa atenção, os Ermo prometem novidades para este ano. Ainda mais ansiamos por elas depois daquilo que a dupla nos tem trazido nos últimos tempos. Quem já teve a oportunidade de os ver em palco experienciou a intensidade, mas também a própria intimidade dos bracarenses. No Festival Bons Sons teremos uma excelente oportunidade para, mais uma vez, testemunhar e vivenciar aquilo que têm para nos dizer.

Vários meses depois da concretização do lançamento de “Vem Por Aqui”, como olham neste momento para esse disco? Mudavam algo ou estão completamente realizados com ele?

Não diria que estamos completamente realizados com o disco que fizemos. Acho que a realização completa com uma obra acaba por ser também o fim dela, ou pelo menos, uma meta no artista em si, neste caso, nós. Somos um projecto que está em constante mutação e evolução, portanto não gostamos de fechar nenhum cadeado.

Recentemente, fizeram uma versão de “Ronda Das Mafarricas”. O que se sente quando se tem a oportunidade de homenagear alguém como Zeca Afonso?

Por acaso, acabou por ser extremamente oportuno este convite de fazer a versão de que falas. O Zeca é uma das nossas maiores referências e é fantástico testarmos a nossa capacidade de reinventar algo tão institucionalizado para nós, por assim dizer. No entanto, pessoalmente, não posso dizer que senti algo de fantástico a fazê-lo. Foi bom porque é divertido fazer música. Acho que não sentimos uma maior responsabilidade por ser uma música de Zeca Afonso.

No início o vosso nome surgiu muito associado a Adolfo Luxúria Canibal dos Mão Morta. Actualmente, os Ermo construíram um caminho que já nem recorda essa associação. Como sentem a vossa evolução?

Acho que é completamente normal. Somos uma banda de Braga e surgimos ao resto do país como um projecto apadrinhado pelo Adolfo, o que abriu algumas portas. Obviamente, acabámos por nos afastar um pouco dessa associação, porque tudo o que é demais é exagero e nunca quisemos ser “essa banda”. É uma evolução natural. Ganhámos mais personalidade e isso cada vez se vincará mais.

Como correram as datas que fizeram por França, Espanha e Reino Unido? Alguma vez imaginaram que seria possível andarem a tocar pela Europa?

Correram surpreendentemente bem. Tínhamos gente à nossa espera em algumas cidades, tivemos alguns espetáculos lotados e as pessoas, no geral, tiveram uma óptima reacção à nossa música. Sim, acaba por ser um objectivo quando fazes uma banda aos 18 ou 19 anos e tens uma ideia super romântica de tudo, portanto, acaba por ser um checkpoint que queres mesmo ultrapassar. Mais virão.

A forma como encaram o público difere de local para local? É para vós diferente tocar, por exemplo, no Festival Bons Sons ou num bar qualquer para um menor aglomerado de gente?

Sim, claro… Não digo que vá falar de maneira diferente ou de apresentar um espetáculo quase antagónico ao que apresentaria se fosse num bar. Mas esforçamo-nos sempre por nos adaptar às situações em que Ermo nos insere e gostamos de nos sentir em casa para todo o lado onde vamos.

Fico com a ideia que as vossas emoções e reacções são genuinamente empoladas em palco. Esse é um território fulcral para vós?

Completamente. As prestações ao vivo são uma parte basilar daquilo que é o projecto e a sua dimensão teatral ao vivo. Fazemos questão de deixar sempre o nosso suor e sangue em palco. Os melhores concertos são quando o público também deixa o seu.

Parece óbvio que a nossa história e cultura motiva também o vosso processo de composição. Que influências usam na escrita dos temas?

Ouvimos bastante música e lemos muito, portanto não te sei dizer de onde é que vem o quê. A inspiração vem mais daquilo que nos apetece dizer do que influências literárias ou musicais. A piada é sermos adolescentes. Temos uma opinião nova todos os dias e a de amanhã, se for preciso, é contrária à de hoje, portanto acaba por ser difícil ficar sem saber o que dizer.

Ao fim de três anos como Ermo conseguem criar algo que, musicalmente, parecia pouco explorado por cá. Quando começaram, sentiram essa lacuna?

Claro. Daí o nome do projecto. Acho que falta fazer imensa música em Portugal. Só depende de cada um. Nós fazemos isto, encaixem-nos onde quiserem.

Qual a vossa visão acerca do estado de Portugal?

Entendo o porquê de nos fazeres essa pergunta, mas a verdade é que nem sei o que te hei de dizer. Acho que é unânime que Portugal está ligado às máquinas. O problema português, antes dos políticos, antes dos bancos, antes do que quer que seja é o seu povo, mal-criado, atrasado 30 anos, que foi empurrado para um futuro para o qual ainda não estava pronto e agora está a sofrer as consequências disso. Ou se calhar estou completamente errado e a culpa é do Guterres ou um desses. Não faço ideia, começa-me a ser indiferente e cada vez mais parece ser essa a única atitude que tem retorno.

O que se tem ouvido por aí? Alguns discos marcantes em 2014?

Sim, têm saído muitos discos interessantes como o dos ArchiveTodd Terje e Kangding Ray. Destaco o dos Sensible Soccers. Grande disco, grande banda, pessoas ainda melhores.

Depois do EP e de “Vem Por Aqui”, o que podemos esperar de novo dos Ermo?

Vamos lançar um novo EP em Outubro chamado “Amor vezes Quatro” e estamos a começar a trabalhar no segundo álbum para lançar no próximo ano, espero eu.