Surpreende que este projecto seja puramente observado sob a combinativa lente dos Sunn O))) e dos Boris, constatando-se perifericamente as diferenças entre ambos. Contudo, aqueles que já se emaranharam pelo imenso catálogo auditivo tanto dos norte-americanos, quanto dos japoneses, compreenderam há muito que existe uma esfera de explorações que vão bem para lá do simples estonto perante uma imperativa parede de amplificadores e cabinets.

Voltando ao génesis, os Ensemble Pearl edificam-se enquanto quarteto: Stephen O’Malley dos insofismáveis Sunn O))), Bill Herzog (ex-baixista dos Jesse Sykes & The Sweet Hereafter) e duas roldanas dos maquinalmente orgânicos Boris: o muitas vezes convidado de honra Michio Kurihara e o essencial baterista Atsuo. Olhando para esta sugestiva premissa, seria bastante fácil instigar o grupo e questionar-lhes sobre o paradeiro do ruído, do feedback. Mas, lá está, não houve sempre um mundo inteiro para lá da trepidação? O surgimento dos Sunn O))), a título exemplificativo, não foi exactamente a consequência de um outro factor crucial? Não fará mais sentido substituir a ânsia do estampido pela assunção da experiência?

É que é precisamente pelos latos carris experimentais que segue a locomotiva dos Ensemble Pearl. Submersa numa interminável neblina de samples, layers e carpidos minimais, ela vai soerguendo uma atmosfera que nunca explode e jamais se deixa seduzir pela conclusão fácil. A espaços, sim, as guitarras tendem a detonar-se num inquisitivo ruído, mas nunca se entregam sem uma preparação prévia, sem um alinhavar de terreno. Não somos desprevenidamente colhidos qual básica película de terror; a percussão ritmada e reverberante de Atsuo mantem-nos hipnoticamente atentos (Painting On A Corpse e Island Epiphany) ao que em redor deriva e o facto dos Ensemble Pearl não seguirem o frenesim do free jazz à Æthenor compassa-nos a torrente sanguínea.

O que há, então, de atraente na cartilha deste grupo? A sua distinta capacidade para nos transportar numa viagem de extensa duração, que se torna vívida pelo seu vasto índex de contemplativas paisagens: Island Epiphany, por exemplo, respira de epicentro estendido numa orla florestal, onde somos convidados a perder-nos por entre a plácida demência à The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble; apenas para que, minutos depois, terminemos abandonados num oceano sem língua de terra à vista denominado Giant, onde magnetizantes sons, dispostos em desordeiras camadas, nos recordam das iniciais páginas dos Barn Owl e de algumas peças de Fennesz. O corolário surge na derradeira Sexy Angle: dezanove minutos de uma jornada tão mentalmente desafiante quanto o périplo de Benjamin L. Willard rio acima, em Apocalypse Now. Os seus orgânicos timbres remetem-nos para a esguia floresta cambojana, onde os vultos espreitam em aparente inexistência.

Os Ensemble Pearl invocam aquilo que poderia ser descrito como uma tântrica experiência musical, desenhada para que a nossa mente permaneça num constante abrir de portas, uma após a outra – sessentas minutos de um vagueio solitário e exigente.