O Coliseu dos Recreios ainda se estava a compor quando os Melech Mechaya subiram ao palco. Não houve tempo para apresentações, arranques bonitinhos que despoletam sorrisos inocentes – não, nada disso -, os Melech Mechaya chegaram e incendiaram o palco e o público. Durante a sua animada e frenética actuação houve espaço para a primeira subida ao palco de algum público – duas raparigas -, conseguiram-se fazer duas grandes rodas de dança, e o público não parou durante toda a actuação da banda. Do princípio ao fim os Melech Mechaya tiveram uma prestação imaculada e fizeram um óptimo arranque para Kusturica e a sua banda anti-tabagista.

Mas o arranque preparado de pouco serviu a Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra. O concerto começou com o hino da URSS passando rapidamente para o rock cigano. O vocalista, o Dr. Nele Karajlić, apareceu com um fato de licra azul em formato de morcego, e lá ia puxando pelo público – pedindo repetições de sons e puxando pela rivalidade Lisboa/Porto -, e a sua boa disposição era nítida, mas algo forçada.

O tempo que se passou entre o início e o fim do concerto de Kusturica foi algo lento. O início e o fim foram explosivos, as pessoas mexiam-se e entusiasmavam-se, mas durante todo o espectáculo tal não aconteceu. Mesmo em canções como Pitbull Terrier não agarravam nem puxavam pelo público. Os momentos de maior animação foram algumas introduções às suas músicas, com a busca de alguns clássicos (comoSmoke on the Water dos Deep PurpleShine on You Crazy Diamond dos Pink Floyd ou a banda sonora da Pantera Cor-de-Rosa), mas eram de curta duração.

Outros momentos de maior animação foi uma invasão de palco autorizada e pedida pela banda, com cerca de 20 pessoas a dançar; ou a chamada de uma rapariga (que acabaram por ser duas) em Was Romeo Really a Jerk; o fácil refrão de Fuck You, MTV; ou as brincadeiras tradicionais da TNSO (a guitarra giratória de Ivica Maskimović, ou um arco gigante, segurado por duas jovens do público, tocado pelo simpático e bem disposto violinista Dejan Sparavalo e por Emir Kusturica com a guitarra eléctrica).

No encore repetiu-se Fuck You, MTV e regressou o hino da União Soviética. Nada de novo. E assim terminou o concerto de Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra. No fundo, foi uma animada noite no Coliseu de Lisboa, mas Kusturica já não surpreende – nem parece se esforçar para surpreender.