2010 foi o ano em que o feiticeiro eléctrico pisou pela primeira vez solo português.Nós estivemos lá e testemunhámos o poder grotesco do grupo de Jus Oborn. Mas Electric Wizard não pousou o bongo depois da sua passagem por Barcelos. Pelo contrário, acendeu-o, elevou-o a Lúcifer e este deu-lhe a bênção narcosatânica. De pulmões revitalizados pela “sweet leaf”, e com o devido consentimento demoníaco, os quatro músicos compuseram o sétimo álbum de originais: Black Masses.

Três anos volvidos desde o lançamento de Witchcult Today, registo considerado por muitos como um dos melhores da carreira da banda, Black Masses chega pesado às prateleiras. Não só no sentido musical – aí já é tradição – mas, principalmente, por ser um disco bastante esperado pelos fãs que nele depositam fiéis esperanças. Ao contrário de muitos grupos, Electric Wizard não tem perdido combustível ao longo da carreira. Mantêm-se sólidos e asseguram uma bitola qualitativa bastante alta, nunca deixando para trás a tradição doom, da qual são devotos discípulos.

E é neste paradigma que, finalmente, Black Masses atraca ao cais.

As expectativas avolumadas por três anos sabáticos (no pun intended) são facilmente manejadas pela faixa inicial Black Mass. O feedback inicial garante-nos que estamos num álbum de Wizard. E o que vem de seguida também: um enorme groove, criado pelas típicas guitarras low-tuned e por um baixo tão profundo que facilmente faz vibrar os bibelôs mais próximos. Nota-se, no entanto, algo um pouco diferente: a velocidade. A composição está mais rápida, seguindo um pouco a linha de We Live(2006). Mas, ao contrário do que acontece com esse álbum, tem em simultâneo todo o arcaboiço de um Come My Fanatics (1997) e de um Dopethrone (2000). Black Massé o início perfeito; dela jorram múltiplos cenários à H.P. Lovecraft, abrindo os portões do ocultismo, que tem seguimento em…

Venus In Furs. Não, não é cover de Velvet Underground. O título é uma homenagem a um filme de 1969, realizado por Jesus Franco. Um filme de terror, claro está. Esta faixa mantém a mesma toada de Black Mass, destacando-se a voz de Jus, mais nasalada e reverberante do que é habitual – dá até a sensação de que o líder de EW está numa cripta, talvez situada ao lado da de Drugula. É também impossível ficar indiferente aos solos que vão surgindo aqui e ali, como pequenos presentes amaldiçoados. Não há dúvida de que tanto Oborn, como Liz Buckingham, tiveram exímio cuidado na criação de verdadeiros momentos psicadélicos. Em suma, Venus In Furs é um tributo emblemático à magia negra, com o seu final a engolir quem a ouve, como se de um vortex se tratasse. Apenas nos cospe em…

The Nightchild. A 3ª música do álbum leva o registo para um nível ainda superior. É o regresso da pura locomotiva doom, tão característica do álbum homónimo de estreia (1995). Impossível não pensar em Devil’s Bride ou Stone Magnet quando The Nightchild se instala nas colunas, apresentando o seu estonteante riff principal. Esse feeling old-school é, no entanto, aprimorado por uma composição mais trabalhada e não tão “straight to your face”, como acontecia no início da carreira. Electric Wizard não se preocupa, hoje em dia, somente com o riff e com a distorção; há um claro enfoque na ambiência e na envolvência do ouvinte, algo que fica bem patente na série de ruídos que se vão ouvindo, enquanto Jus repete a frase “under the black sun”… The Nightchild acaba por se desfazer num imenso lago de efeitos. Destaque também para as poderosas linhas de baixo de Tas, ele que faz a sua estreia na gravação de um full lenght de EW.

Patterns of Evil volta a acentuar o ritmo mais veloz que os britânicos escolheram para este álbum. Iniciada com um bruto riff arrancado de strings tão low-tuned que quase parecem cordas de um estendal, esta música tem como ponto alto os excelentes solos, carregadinhos de efeitos trippy e alucinógenos. Pura descarga psicadélica, que nos deixa ofegantes e anestesiados. Melhor não poderíamos estar, pois o que vem a seguir exige preparação mental.

E o que vem a seguir é Satyr IX. De longe, um dos melhores momentos que Black Masses tem para oferecer. São dez minutos de puro transe, onde vibrações em série se entranham numa bateria ritualista/tribal, proporcionada por Shaun Rutter – outro debutante nas gravações com EW. Somos colocados numa floresta a céu aberto, prontos a testemunhar uma cerimónia satânico-medieval. Uma espécie de Doom-Mantia versão 2010, menos melódica e mais etérea. Pura neurose abastecida a psicotrópicos.

Turn Off Your Mind remete-nos para Saturn’s Children, faixa de We Live. Não pela estrutura musical, mas pelo facto de o título ser um excerto da letra dessa música de 2006 (“Turn off your mind… There’s nothing to find…”). Na mesma linha de Patterns of Evil, é uma ode aos pais Black Sabbath, uma ode onde o fuzz se acumula em várias camadas, e onde diversos samples são adicionados, criando novamente um final “vortexado”, como em Venuns In Furs. Cheira a casaco de cabedal durante os seis minutos de Turn Off Your Mind, cheira a 70’s e para isso muito contribui o tom de voz de Jus, semelhante àquele que Ozzy apresentava nos seus anos dourados.

A penúltima faixa, Scorpio Curse, poderia estar perfeitamente no alinhamento deWitchcult Today. Riff melódico, lento, catchy, inserido numa estrutura voluptuosa e “deep” o suficiente para fazer de Scorpio Curse outra das faixas-rainha de Black MassesScorpio actua como o verdadeiro fecho musical do álbum, já que Crypt of Drugula são nove minutos de drone embrulhado num intenso background, onde o som dos trovões e da chuva assumem o papel principal – o que revela, claramente, que a atmosfera foi um dos pontos mais trabalhados pelos ingleses.

Conclui-se assim a audição de um dos lançamentos mais aguardados de 2010. Resultado? Um dos melhores álbuns dos últimos tempos. Está aqui tudo escrito, nesta review? Não, não está. Nem poderia estar. São apenas os traços gerais dos primeiros batimentos da nova roupagem do feiticeiro eléctrico. Mas uma coisa é certa: Electric Wizard continua a distribuir lições de doom, doom esse envolto numa ambiência cada vez mais negra. Marijuana, horror, ocultismo, livros de H.P. Lovecraft, filmes de terror dos anos 70, Black SabbathSaint Vitus e um desejo mórbido por misturar tudo isto num caldeirão, qual bruxo da Idade Média. Ou julgam que a produção bastante “raw” foi coincidência?