“From the Ages” é um ponto de interrogação, mais do que uma exclamação, na carreira dos Earthless — uma das vacas mais sagradas do rock espacial movido a jams infindáveis perdeu-se para a falta de gravidade da guitarra de Isaiah Mitchell, guitarrista dos norte-americanos, que levou as canções consigo para um órbita diferente da nossa. Neste último registo, a fadiga do cancioneiro de Howling Rain pesa nas seis cordas de Mitchell, que se dedica, durante mais de uma hora, a solar incansavelmente sobre o esforço do baterista e do baixista da banda, naquele que se revela o exercício de olhar directamente o sol menos produtivo dos autores de “Sonic Prayer”.

Há pouco mais para destacar em “From the Ages” que não as diatribes de guitarra de Mitchell, focadas no uso exaustivo da escala pentatónica e no disfarce desleixado do pedal de wah. Trata-se de um disco rock praticamente despido de riffs, estruturado à volta de meia dúzia de acordes e de uma dupla de músicos incansável, cujo os esforços se perdem nos onanismos alheios. É, de resto, esse o louvar devido à banda: a Mike Egintone ao seu baixo, que envia sinais para a distante terra de onde se ouve o disco, e ao sempre intenso Mario Rubalcaba, dado que ambos quase fazem valer o disco. E fá-lo-iam, havendo mais de si nas músicas. Da regra traçada nas primeiras duas faixas, pode excluir-se o exercício “Equus October”, uma contenção terrena de nos aguar a boca, e a menos repetitiva (e ainda bem, dado que dura 30 minutos) faixa homónima, cujas dinâmicas demonstram umflirt com aquilo que nos leva a ouvir rock — que não se pode ficar pelos solos de guitarra.

Não nos demos aos enganos, nem todo o espectacular exercício de guitarra deve ser soberbamente exibido (como a experiência tão bem nos diz em relação aos virtuosos azeiteiros que polvilham palcos com enfado) — e o embalo de fazer canções serve precisamente para nos lembrar de que há mais numa música rock para além da guitarra. “From the Ages” falha redondamente neste aspecto: não há muito mais para além de guitarra, e a esta não merece assim tanto a nossa atenção. Desculpem-se pelo nome, Earthless, mas, da mesma forma que há ‘song’ no conceito ‘song-writing’, há ‘earth’ na vossa nomenclatura. Usem-no, raisparta!