O último álbum de Earth foi vítima de falatório por causa do seu mentor, Dylan Carson, e das influências que este lhe apontou. Com o alinhamento da banda a ser mexido e remexido, dando lugar à entrada de uma nova baixista e de uma violoncelista, ambas ainda inexperientes nos actos dos pais do drone, Carsondeu numa de Cavaco Silva a falar da bolsa de valores e apontou os inputs que recebeu de bandas árabes, nomeadamente dos reis do Saara Ocidental, os tuaregues Tinariwen. Tudo perdeu a cabeça com essa mistura, mas também todos se esqueceram de que o som dos Earth não precisa de novas influências para ser (ainda mais) inconfundível e único.

Angels of Darkness, Demons of Light 1, como resultado, tem tanto de desapontante como de belo, algo que só lhe confere mais mística e, melhor ainda, ajuda à ingestão e digestão das sempre longas músicas dos Earth. À lenta e precisa exploração das melodias de Carson, e com o baixo a imprimir a gravidade que quase não existe no som etéreo dos norte-americanos, o violoncelo acaba por desempenhar o papel de terapeuta, lidando e canalizando a nossa angústia para o arranhar das cordas com o arco. As melodias, em torno deste circo, correm atrás da guitarra, que se disfarça nas gorduras de tudo o que a envolve para fascinar e hipnotizar.

Dylan Carson arranjou uma nova motivação para reinventar o som dos Earth, sem sair da sua zona de conforto única e que tão bons resultados tem vindo a dar. Como é que os norte-americanos continuam a lançar álbuns com a sua fórmula enfadonha, massacrante e desoladora sem enfastiar ninguém durante a sua narrativa de mais de uma hora, continua a ser um segredo muito bem guardado pelo mentor da banda.

O melhor: é um segredo que está tão evidente aos olhos de todos, sujeito à apreciação de qualquer curioso em grandes malhas como Old Black, ou mesmo na longuíssima Angels of Darkness, Demons of Light. De que vale ter um bom segredo se não o pudermos partilhar?