No subsolo de um país cuja maioria política não esconde os seus tiques despóticos, fervilha a autonomia. Fiéis à independência que o do it yourself exige, os Downfall Of Gaia tratam o crust por tu desde 2008, ano em que o suor se desprendeu e o riff soou. De lá para cá, ao punk insubmisso adicionou-se a contemplação do post-metal e a neurose do sludge – fusão materializada categoricamente em “Suffocating In The Swarm Of Cranes”, editado há doze meses. Discutimos pormenores de biografia com Dominik Gonçalves dos Reis, luso-alemão.

Primeiro de tudo, parabéns pelo “Suffocating In The Swarm Of Cranes”, que acaba de completar um ano. Como olham para ele, actualmente? O que alterou na vossa carreira?

Muito obrigado! Bem, é o costume: estamos muito satisfeitos com o “Suffocating In The Swarm Of Cranes”, mas já encontrámos material diferente para introduzir no próximo disco. É um processo cíclico e sem fim. O que é óptimo, diga-se! Estamos sempre à procura de desafios quando é altura de compor – elementos novos, acima de tudo. O último álbum obrigou-nos a andar na estrada como nunca.

Provindos de um background punk/crust, onde a ética DIY é essencial, a vossa associação à Metal Blade mudou a vossa forma de trabalho? Eles adequam-se à perspectiva artística dos Downfall Of Gaia?

O pessoal da Metal Blade é extremamente profissional. Poder trabalhar com eles tem sido magnífico! Recebemos bastante apoio, mas jamais nos obrigam a fazer algo com que não concordamos. Acostumámo-nos a ouvir episódios negativos sobre bandas que se associam a editoras “maiores” e, por isso, sempre nos mantivemos alerta antes de assinarmos por alguma. Era um factor importantíssimo podermos continuar a fazer o que queremos, da maneira que pretendemos. Falámos com a Metal Blade antes de nos associarmos, questionámo-los. As respostas que obtivemos dissiparam qualquer dúvida e incerteza.

O “Suffocating In The Swarm Of Cranes” debruça-se sobre um conceito específico: um indivíduo que lida com a insónia perpétua. Qual o motivo por detrás dessa escolha e que temáticas tentam explorar, habitualmente?

Os Downfall Of Gaia sempre foram uma banda com letras críticas. Tal como disseste, nós provimos de um background punk/crust/DIY e nele permanecemos. A metáfora é algo a que nos habituámos – dizemos mais através de menos palavras. O tópico do nosso último disco na altura, pois encontrávamo-nos stressados pelo quotidiano e pela sociedade. O que é algo perigoso, diga-se. Há imensa gente que está a perder o controlo da sua vida pelas pressões exteriores.

Vocês continuam a escrever em alemão. Porquê? Alguma vez equacionaram usar o inglês, para atingir um target maior?

Nem por isso. Tentámos algumas letras em inglês, há anos. Para ser sincero, não consigo exprimir-me de inteligível maneira quando o faço. O alemão é a minha língua materna e, com ela, posso utilizar jogos de palavas, metáforas e expressões. É uma questão de conforto.

É curioso que bandas como Alpinist, Jungbluth, Svffer ou Lentic Waters usem sempre o alemão. Consideras a vossa cena um movimento virado para dentro? Ou seja, uma cena onde escreves para quem olhas directamente e não para aqueles que se encontram fora do circuito, em platformas online?

Não diria isso. Todas essas bandas viajam pela Europa, incluindo países onde o alemão não é idioma oficial. Além de que, na maioria das casos, explicamos a temática por detrás de uma canção. Pode ser num booklet, no bandcamp ou no palco. Não sei porque eles também usam a língua materna, mas até poderá pelos mesmos motivos de Downfall Of Gaia.

Regressando ao “Suffocating In The Swarm Of Cranes”, ele mostra uns Downfall Of Gaia capazes de explorar novos limites. Além das fundações crust, há território onde o post-metal ou o sludge são traços reconhecíveis. Até onde essa vertente experimental poderá ir?

Tentamos sempre desenvolver-nos. Não nos sentiríamos confortáveis se um álbum novo soasse idêntico ao anterior. Claro, permanentemente haverá material similar entre discos, mas, além disso, empenhamo-nos em descobrir novos e diferentes pormenores. Não direi que queremos ser super experimentais e escrever material nunca antes escutado – apenas conceber algo com que nos sintamos bem.

E há planos concretos para um novo disco ou EP?

Após a nossa tour europeia de Outono, afastar-nos-emos da estrada e passaremos à composição, rumo a um novo álbum. Precisamos mesmo de algum tempo sem concertos. Nós estamos espalhados pela Alemanha e não é fácil reunirmo-nos para ensaiar.

Vocês irão tocar 45 minutos no Amplifest. O set centrar-se-á no “Suffocating In The Swarm Of Cranes” ou haverá espaço para material antigo?

Será uma mescla. Mas o foco irá para o nosso trabalho mais recente.