Previamente avisados para o conteúdo único e exclusivo desta passagem de Alex Zhang Hungtai pelo palco do Teatro Maria Matos, a grande expectativa residia em perceber qual o entendimento musical que Dirty Beaches estaria a articular de Lisboa. Cidade como pano de fundo ou como fonte de inspiração? Contudo, como artista itinerante e experienciado em tantas versões citadinas, poderíamos antever que este seria um trabalho bem entregue. Apesar disso, talvez não estivéssemos preparados para um entendimento tão subjectivo e tão longe do emocional que nos desperta a nossa cidade habitat.

Acompanhado em palco por Shub Roy e por André Gonçalves, a subida da tela e a percepção do jogo de imagens transmitidas pelas várias televisões que recortavam o canto de cada um dos músicos, proporcionou um precoce entendimento que “Landscapes In The Mist” nos iria atribuir um testemunho não só sonoro, mas também visual. Ao autismo e ao natural império da batida conferida pelo sintetizador modular, sobrepôs-se, de início, a espaçada melancolia que tanto nos transmite a utilização do saxofone. Mas Alex não se prendeu no seu mais clássico uso e as lufadas do seu sopro iam sendo articuladas como se se estivesse a confeccionar um conjunto de efeitos. Poderíamos atribuir ao sintetizador de André o apadrinhar da noite, mas ao saxofone a mestria musical.

Dirty Beaches apresentou uma peça uniforme e estática que se aproximou mais dos seus primeiros trabalhos. Sim, foi inesperado este reencontro e não podemos deixar de questionar se esta será a nossa Lisboa. Também não seremos capazes de responder, cada um a vê e sente como quer, retirando daí os seus dividendos. Serviu-se dela e nela baseou a sua nova criação musical e, mesmo quando pegou na sua guitarra e lhe adornou novos efeitos, distorção e feedback, a estranheza não diminuiu.

Música ambiental e essencialmente introspectiva. Verdade seja que o natural de Taiwan caiu no desconhecido e isso originou a concepção de um vazio em que se sentiu faltar algo mais. Admitamos que até possa ter sido a necessidade de ouvir um pouco a sua voz. Na retina fica o caloroso abraço entre o trio no final, mas também a percepção que a Alex assenta bem o saxofone, não deixando de ser incrível pensar que um instrumento tão sóbrio e tom humilde, esteja ligado a algumas histórias de excesso. Por aqui ficou conexo a uma nova crónica no valorável e pouco estanque processo criativo de Dirty Beaches.