A freak folk não tem hoje o fôlego que tinha quando, há uns anos, o nome Devendra Banhart começou a cravar-se nos ouvidos do mundo indie. Talvez por isso mesmo o norte-americano não esteja nem tão freak, nem tão folk quanto quando começou. Mas se há algo que não esmorece no seu cunho é o talento para fazer boas canções, algo que ficou por demais evidente no concerto, lotado, no Centro Cultural de Belém, no seu aguardado regresso em nome próprio a Lisboa.

Mala, o novo álbum, foi a base do cancioneiro discorrido e percorrido com a classe sempre em cima da mesa, a pautar a postura de Banhart com uma subtileza que não contorna a entrega evidente de um artista a braços com a sua condição de eternamente incompreendido (e assim se justifica um epíteto “freak”); esta dedicação, contudo, vale-lhe a aclamação constante e praticamente unânime dos seus frutos, algo que se sente nos seus concertos com todo o mérito de quem consegue fazer em canções simples arranjos fulcrais. A incompreensão traduz-se num amor incondicional — ou não fosse este o sentimento do irracional.

O aparato  com que se apresentou no CCB, de três guitarras, bateria e baixo, um teclado aqui e ali, justificava-se invariavelmente na forma como cada canção evidenciava um orgânica electrificante — mais do que simples e obviamente eléctrica —, que não deixava de estar assente nos arranjos inteligentemente processados. Entre delays e modulações a alterar as sinapses das guitarras, que iam disputando o controlo dos ambientes da actuação, sempre a meia luz, com os teclados, a banda de Devendra manteve-se na mesma tónica da actuação. O controlo das suas variáveis caiu, na sua totalidade, na presença do frontman e na forma como este colocava a sua voz e se expressava.

Através da linguagem, o singer-songwriter consegue impregnar o concerto de sensações distintas e expressões completamente díspares, ainda que o registo musical se mantenha. É nos pormenores que se constroem as grandes canções, mas é com dialectos que estas se escrevem — a ciência de Banhart, na forma como este nos conduz por um alinhamento relativamente monocromático, está na forma como este varia radicalmente o contraste das estórias que conta, saltando entre o inglês e o espanhol enquanto sussurra as suas músicas, e o português, que arranha no diálogo com a audiência.

A riqueza de Devendra Banhart não se resume, por isso mesmo, à música; extravasa nos símbolos com que pinta cada momento, expressando-se de forma completa e ampla, em todas as linguagens que usa, quer em termos musicais, quer em termos de dialecto. Em Lisboa, tudo isto ficou óbvio num concerto pautado pela constante, com a fuga à regra a ditá-la como padrão — num concerto de um artista aclamado, não se tocou muito mais de uma hora; num concerto de meia luz, houve momentos de rock e houve mesmo um toque de jam a adocicar o palato; no essencial, não se simulou um encore, fechou-se um concerto com um incontornável ponto de exclamação, Carmensita. O homem é, ainda, um freak, que não restem dúvidas.

A primeira parte ficou ao cargo do ex-Los Hermanos Rodrigo Amarante. Saído da mesma escola de bons cantautores brasileiros que nos deu um Marcelo Camelo, o cantor de terras de Vera Cruz tocou para um público ansioso, mais do que desinteressado, mas sem captar uma atenção claramente devotada ao norte-americano. Mesmo contra a maré, deixou um registo positivo.