Aparentemente, está outra vez na moda gostar-se de hip-hop. Mas não pode ser de qualquer tipo: podemos falar dos últimos lançamentos dos Beastie Boys ou de Kanye West, mas ganhamos pontos extra se formos atrás do hype e ouvirmos Tyler The Creator ou Death Grips. Será que esse hype se justifica ou é só mais um fenómeno passageiro?

No caso dos Death Grips, estamos a falar de um conjunto arrogante, pretensioso, e egocêntrico que, em impulsos caprichosos, cancela tours europeias inteiras e lança álbuns na internet sem o consentimento da sua editora. E também estamos a falar de um conjunto que tem lançado alguma da música mais interessante desta década. Um ano depois de Exmilitary, chegou-nos o grande teste de qualquer grupo experimental: o difícil segundo álbum.

A Epic arriscou bastante ao pegar num grupo tão pouco convencional, mas em The Money Store reparamos imediatamente no efeito que uma grande editora pode ter sobre a música. Não podemos saber como seriam estas faixas se tivessem sido lançadas de forma independente, mas podemos constatar duas grandes mudanças em relação ao álbum anterior.

Em primeiro lugar, um trabalho de produção que só pode ter dado muitas, muitas dores de cabeça. Ao contrário do que acontecia em Exmilitary, onde ouvíamos um pouco de tudo, desde uma entrevista a Charles Manson até riffs de Pink Floyd, neste segundo álbum pouca coisa reconhecemos, o que não quer dizer que os Death Grips tenham deixado de usar dezenas e dezenas de samples. Ainda assim, no meio de todo o caos, da sujidade e da crueza das músicas, a produção límpida e cristalina consegue conter a entropia e evitar que este universo se expanda excessivamente. Os sons estão espalhados de uma forma perfeita pelo ambiente sonoro, o estéreo é aproveitado ao máximo, de uma forma que é tão típica da música mais pop, e qualquer som distorcido, como no início de Double Helix, é perfeitamente intencional – uma forma de dizer que a produção é boa, mas não amigável.

Depois, temos os refrões e os “hooks”. Quem achava que Guillotinejá tinha um bom hook vai achar este álbum completamente absurdo. Não há palavras para o descrever. O arranque de Get Got, o refrão fragmentado de Hustle Bones, os sintetizadores enquanto MC Ride grita a plenos pulmões “I’ve Got The Fever”, o início orelhudo de I’ve Seen Footage, a música marroquina adulterada em Punk Weight, a letra de Bitch Please… basta ouvirmos o álbum uma vez para reconhecermos tudo isto meses depois. Parece que a música comercial não é a única a ser capaz de dominar por completo a nossa frágil mente: no caso dos Death Grips, ela é completamente violada.

De resto, não há muito a dizer a quem já conhece o primeiro lançamento. MC Ride continua a adoptar a persona de um psicopata homicida misógino, conseguindo ainda atacar a sociedade actual em I’ve Seen Footage ou Hacker, e Zach Hill continua a destruir a sua bateria como se não houvesse amanhã. No meio de toda esta esquizofrenia, conseguiram não só manter a sua coerência, como ainda dar um grande salto qualitativo.