As ideias maiores provêm da caminhada, sublinhava Nietzsche. Provêm do vagueio solto, espontâneo, onde os cinco sentidos se submetem à deliberação da Natureza. O álbum número dois dos Deafheaven nasceu no deambular: George Clarke, vocalista e membro fundador, conduzia pelas ruas do bairro onde a sua mãe habita, quando uma refulgente moradia lhe tomou o olhar. Nela, uma rapariga deitada perfazia um idílico cenário. O difuso conceito de “perfeição” soltava-se da divisão etérea e descia à convicção corpórea – tudo diante do músico, que, no seu carro, entendeu que dele, do cenário, jamais faria parte. A depressão vencia-o;Sunbather assaltava-o.

Aos Deafheaven, desde o pródigo menino Roads To Judah, nunca lhe negámos o direito à tristeza. A simbiose entre os murmurantes parágrafos post-rock e os enfermos sacrifícios black metal narrou-nos, de pulmões profusos, a frustração. Escrituras de guitarra, onde o vulgar riff ergueu bandeira branca ante a embriaguez sónica do shoegaze e do tremolo picking, e crispadas sentenças de bateria, ditadas a blast beats, falaram-nos de uma dolência permanente. Mas Roads To Judah, alagado de uma inexperiência característica de quem se estreia, mostrou-se por vezes estanque nos seus intentos. A fórmula escolhida pelos norte-americanos rodopiou sobre si mesma e aos neutrais tons pediam-se, pelo menos, rasgos primários.

Sunbather é mais do que esse rasgo premente: é o segundo álbum que todas as bandas gostariam de compor. Sem descaracterizar o ADN que nos obrigou a escutá-los em 2011, os Deafheaven não só suprimiram todas as insuficiências de Roads, como fortaleceram a sua obra através de uma convicção ciclópica, erigida na multiplicidade de emoções. Não que à angústia monocromática do seu antecessor, Sunbather argumente num dialecto descaradamente optimista; o que nele desvendamos é o espaço para o sonho, para a utopia. Outrora tomados pela inquietude da realidade e do concreto, George Clarken e Kerry McCoy não se coíbem de alargar o espectro por onde marcham, talhando espaço para o “daydream”. A ânsia exasperante de pertencer àquela vivenda mistura-se com a soltura do “achar possível” e do olhar o sol directamente, enquanto o pensamento toma lugar – a cor da capa reflecte precisamente a nossa visão quando somos inundados pela sua luz.

Musicalmente, Sunbather transcreve-se num aperfeiçoamento, alicerçado em quatro temas centrais e três interlúdios plenamente justificados. À expectável opção pelo build-up post-rockish, os norte-americanos optam por transições subtis, retirando a pose estrutural aos temas – Vertigo, durante os seus catorze minutos de extensão, eleva a união entre a melodia e a abrasividade a um nível raramente testemunhado, onde McCoy não evita sequer a inclusão de um repentino solo de guitarra. Maturados pelo tempo, os Deafheaven sabem quando incluir até o piano, na intervalarIrresistible, ladeamento beatífico entre o caos de Dream House e o sufoco da faixa-título. São esses interlúdios que permitem ao disco oxigenar: Windows brota da génese Godspeed You! Black Emperor, servindo cinco minutos de samples resgatados ao pulsar urbano – passos, vozes, automóveis – para logo conceder passagem à final de The Pecan Tree, reverberante eclosão que se despede em fade out.

Ao segundo trabalho, a maior conquista dos Deafheaven é ultrapassarem o (pre)conceito da “banda que junta post-rock com black metal”. A assertividade, a inclusão de novos elementos, a sublevação de sensações e a mestria compositora arrastamSunbather para uma posição sua, capaz de fazer escola. Liberto de restrições e humano, veementemente humano.